Implantes orais em osso tipo IV
Considerações sobre desenho e superfície de implantes como promotores de previsibilidade:
Relato de um caso
Alber
Barbara*
Felix Chalon**
Mario Groisman***
David Felix Balassiano****
SINOPSE
Neste
artigo um caso de prótese fixa cimentada sobre implantes orais é apresentado.
Implantes de titânio puro apresentam uma baixa taxa de sucesso em osso tipo
IV (Jaffin e Berman 1991). Osso tipo IV é normalmente encontrado em regiões
posteriores de mandíbula e maxila. Diferentes desenhos e superfícies de implantes
tem sido recomendados para aumentar a previsibilidade dos implantes orais nestas
situações desfavoráveis. O objetivo deste artigo é discutir as possibilidades
de uso de implantes recobertos com Hidroxiapatita no tratamento a longo prazo
de pacientes edentados que apresentam baixa densidade óssea do rebordo ósseo
remanescente.
SUMMARY
This paper presents a clinical situation where Hidroxylapatite
implants were used on combination to a four unit cimented restauration. Pure
Ti implants showed low sucesses rate in type fourbone (Jaffin and Berman 1991
). This type of bone is usually observed at the posterior regions of the edentolous
archs. Different surfaces and implant designs are used to increase the previsibility
of oral implants in impaired situations. The aim of this paper was to discuss
the use of HA implants in the treatment of patients with low bone quality.
INTRODUÇÃO
Previamente os pacientes eram limitados a um determinado
tipo de prótese pela localização e número de dentes remanescentes que pudessem
ser usados como dentes base. Com a previsibilidade da técnica de implantes osseointegrados
a limitação diminuiu pois o clínico pode repor o suporte necessário para na
maioria das situações empregar
próteses fixas.
O nível de sucesso dos implantes osseointegrados maior
que 90% se encontra bem substanciado em vários estudos longitudinais (Ván Steenberghe
et al 1990; Hahn e Vassos 1993; Adell et al 1981). Portanto o uso de implantes
no tratamento de edentulismo total ou parcial se torna uma alternativa para
obtenção de suporte de próteses. Obviamente esta terapia não é sem complicações.
Aspectos bacteriológicos, oclusais protéticos e de resistência
do hospedeiro aos implantes são considerados fatores etiológicos determinantes
no sucesso em longo prazo dos procedimentos com Implantes (Misch 1993, Meffert
1993, Zablosky 1993). As complicações podem ser minimizadas quando empregamos
uma análise criteriosa do caso, com história médica odontológica - informações
radiográficas apropriadas e uma técnica cirúrgica protética adequada.
Um dos parâmetros usados na avaliação de um paciénte
para instalação de implantes osseointegrados é a qualidade óssea do sítio receptor
que é considerado um dos fatores mais relevantes para a manutenção sucesso de
implantes orais.
Lekholm e Zarb (1985), apontam para 4 diferentes qualidades
ósseas. Osso tipo I apresenta uma compacta e um osso medular homogeneamente
compacto; Osso tipo II é um osso com compacta densa e osso medular também denso;
Osso tipo III é quando se encontra uma camada cortical fina e osso medular denso
e Osso tipo IV é um osso com compacta fina e baixa trabeculagem de osso medular
.
Osso tipo IV é normalmente encontrado em zonas posteriores
de mandíbula e maxila. Num estudo clássico, retrospectivo, Jaffin e Berman (1991),
analisaram 1.054 implantes consecutivamente instalados e observaram que do
total de 102 Implantes instalados em osso tipo IV a taxa de sucesso foi de 65%
enquanto que em osso tipo I, II e III a taxa foi de 97%.
Esta alta taxa de falhas em implantes de
titânio puro instalados em osso tipo IV foi atribuída a pouca trabeculagem óssea
e a falta de estabilidade do implante após sua instalação. Saadoun e Le Gall
(1992) corroboram com a baixa taxa de sucesso de implantes de titânio puro em
regiões posteriores de mandíbula e maxila onde o tecido ósseo foi classificado
como tipo IV. Estes autores recomendam implantes cobertos de Hidroxiapatita
para se obter taxa de sucesso similar ao encontrado em osso tipo I, II e III.
Lozada (1993) numa análise retrospectiva comparando
8 anos de resultados de implantes de titânio puro com os de implantes cobertos
de Hidroxiapatita observou que os implantes de superfície bioativa (Hidroxiapatita)
foram mais previsíveis nas regiões posteriores do arco edentado do que implantes
de titânio puro.
Portanto, o objetivo deste artigo foi apresentar
um caso clínico onde implantes cilíndricos com superfície de
Hidroxiapatita foram instalados em osso tipo IV abordando as considerações
científicas do emprego de diferentes desenhos e superfícies de implantes nos
resultados a longo prazo da técnica inicialmente descrita pelo grupo Sueco de
Per-Ingvar Branemark (1985).
RELATO DO CASO
Paciente do sexo feminino, 46 anos de idade foi
indicada para instalação de implantes no quadrante 4.
Exame Clínico
Ao exame clínico observou-se ausência dos elementos,
47, 46 e 45 (Fig. 1), o elemento 44 apresentava mobilidade grau 11, índice gengival
2 nas faces mesial, vestibular e distal e bolsa periodontal de 11 mm na face
mesial com Indice gengival 2.

Fig. 1 - Aspecto clínico
da região edentada
A palpação o rebordo alveolar apresentava-se arredondado
e uniforme sendo considerado grau III Talgreen (1972). A relação entre arcos
propiciou planejamento de prótese FP2 (Mich 1991).
Ao exame radiográfico, observou-se osso de baixa
densidade e rarefação óssea apical e mesial do elemento 44 (Fig. 2). A altura
entre bordo coronário do tecido ósseo e a imagem radiográfica do canal mandibular
apresentou aspectos de 12 e 14 mm.

Fig. 2 - Aspecto radiográfico da região edentada e do elemento
44 fraturado
Com base no encerramento diagnóstico, uma guia
cirúrgica de resina acrílica foi confeccíonada com o intuito de definir o perfil
de emergência dos elementos dentários a serem reposicionados.
O centro de cada elemento dentário da guia cirúrgica
foi retirado formando um túnel guia para permitir a melhor posição protética
e o correto direcionamento de cada implante.
Dos implantes da Steri-OSS (Baush & Lomb) poderiam
ser empregados implantes de 3,8 mm de diâmetro em forma de parafuso de Titânio
puro, de Titânio coberto com Hidroxiapatita, de 3,25 também em liga de Titânio
e coberto por Hidroxiapatita, implantes de 4,5 mm e 5,0 mm com diferentes tratamentos
de superfície também estão disponíveis assim como implantes cilíndricos de 3,8
e 3,25 mm de diâmetro com superfície de Hidroxiapatita e plasma spray de titânio
(Fig. 3).

Fig. 3 - Diferentes
desenhos de Implantes diâmetros de 3,25 e 3,8 mm com superfície
de Titânio,
plasma spray de Titânio e Hidroxiapatita
Os implantes selecionados para este caso foram os cilindros
de liga de titânio cobertos de Hidroxiapatita de 3,25 mm de diâmetro, topo liso
e comprimentos de 10 e 12 mm. O critério de seleção dos implantes foi a, densidade
óssea subjetivamente avaliado com base na RX panorâmico, volume e altura óssea.
Para instalação destes implantes foram usadas brocas de 3 diferentes diâmetros
com marcações horizontais possibilitando as osteotomias nos comprimentos de
implantes previamente selecionados. Os implantes cilíndricos são instalados
sob pressão. (Fig. 4A e B)

Fig. 4A - Brocas
para osteotomia dos implantes, Steri0Oss cilíndrico de 3,25 mm com marcações
horizontais.
Fig. 4B - Esquema ilustrando a instalação sob pressão do
implante cilíndrico
A região receptora foi anestesiada localmente com solução
de Prilocaina a 3% com Octapressim. Após a anestesia infiltrativa a guia cirúrgica
foi levada ao espaço protético e com uma broca tronco cônica foram realizadas
perfurações do tecido epitelial e conjuntivo para definir o centro de cada um
dos três implantes dos quatro a serem instalados (Fig. 5 e Fig. 6).

Fig. 5 - Guia cirúrgico
Fig. 6 - Marcação pós-emprego da guia cirúrgica
Com emprego de uma lâmina 15 em um cabo de bisturi número
3 a incisão foi realizada a nível de crista alveolar com subsequente exposição
do elemento 44. O elemento dentário em questão apresentava fratura radicular
longitudinal. Após a osteotomia com a broca piloto de 2 mm fez-se uso de pinos
de paralelismo (Fig. 7). A exodontia do elemento 44 foi então realizada.

Fig. 7 - Posicionamento
paralelo do centro das osteotomias.
A sequência de perfurações dos sítios receptores foi
realizada segundo o protocolo de instalação de implantes de 3,25 mm de diâmetro
da Steri-Oss. Após cada procedimento de perfuração óssea, espículas de osso
autógeno foram armazenadas em uma cuba metálica com solução fisiológica.
Após instalação dos quatro implantes a deiscência óssea
da face vestibular do implante do elemento 44 foi preenchida com o tecido ósseo
armazenado. Uma tomada radiográfica periapical foi realizada para se checar
a posição e o nível dos implantes em relação ao canal mandibular (Fig. 8). A
sutura mucoperiosteal foi feita de maneira continua com fio de seda 4.0.

Fig. 8 - Aspecto
radiográfico dos implantes pós instalação.
Observar defeito ósseo no implante instalado na região 44
A paciente foi mantida em dieta líquida e pastosa por
dois dias. A medicação pós-cirúrgica foi realizada com 1,5 gramas de cefalosporina
por sete dias e bochecho com solução de glucanato de clorexidine 0,2% duas vezes
ao dia por dez dias. Após oito dias do procedimento cirúrgico a sutura foi retirada
e os implantes mantidos submersos em tecido conjuntivo e epitelial por três
meses. Após este período de reparo ósseo novo procedimento cirúrgico foi realizado
como intuito de se instalar as cápsulas de cicatrização (Fig. 9) que foram mantidas
15 dias. Os procedimentos de moldagem e transferência da posição do topo dos
implantes (Fig.10) Para o procedimento de moldagem o foi empregado silicona
de adição com os parafusos de transferência adaptados aos análogos dos implantes
e posicionados na moldagem (Fig. 11 ). Núcleos aparafusados para confecção de
prótese cimentada foram instalados sobre os implantes e adaptação checada por
exame radiográfico (Fig. 12 e Fig. 13).

Fig. 9 - Cápsulas
de cicatrização uma semana após conexão dos Implantes
Fig. 10 - Parafusos de transferência dos topos dos Implantes

Fig. 11 - Detalhe
do procedimento de transferência para confecção do modelo
de trabalho
Fig. 12 - Aspecto rediográfico dos Implantes com os núcleos e
provisórios.
Obsrvar aspecto ósseo de normalidade na região de 44

Fig. 13 - Aspecto
clínico das conexões dos dois implantes
Optou-se pela união das coroas de cada dois Implantes. Os
elementos foram então confeccionados com procedimentos convencionais de prótese
fixa em metalo ceramica (Fig. 1.4). Um ano após a confecção da prótese definitiva,
novo exame radiográfico foi realizado para controle (Fig. 15).

Fig 14 - Prótese instalada
Fig. 15 - Aspecto radiográfico com 1 ano conexão dos implantes.
Discussão ...
A possibilidade do emprego de implantes deve ser considerada
em qualquer planejamento protético dentro da moldura científica de conhecimento
de periodontia, implantologia e prótese. O objetivo deste artigo foi apresentar
um caso da utilização de implantes, Steri-Oss, cilindros, revestidos com Hidroxiapatita
em osso tipo IV na região posterior de mandíbula.
O desenho do implante aqui empregado com colo periodontal
polido facilita a adaptação entre o pescoço do implante e a conexão de prótese
eliminando a possibilidade da invasão bacteriana por desadaptação de bordos.
Este fenômeno ocorre com implantes onde a cobertura é de Hidroxiapatita ou a
aplicação de Plasma Spray de titânio é realizada até o topo do implante. A presença
do colo polido de 2 mm também promove uma zona tampão intermediária. Caso ocorra
perda óssea inicial existe portanto 2 mm protetores e as coberturas de Hidroxiapatita
não será diretamente afetada (Smiler 1991, Hahn 1993). Os resultados clínicos
e histológicos de implantes revestidos com Hidroxiapatita apresentam correlação
direta com o osso onde a matriz óssea é depositada na camada da Hidroxiapatita
fazendo uma interação físico-química entre o colágeno do osso e as cristas de
Hidroxiapatita da superfície do implante, sua cristalinidade e pureza não podem
ser transferidos de uma determinada marca de implantes para outra (Meffert 1993).
A superfície de Hidroxiapatita dos implantes Steri-Oss
é de grande pureza, uniforme, densa, altamente cristalina e não solúvel (Smiler
1991). Para obtenção desse tipo de superfície um grande número de variáveis
intrínsecas devem ser controladas no processo de aplicação do plasma, essas
variáveis incluem temperatura do plasma, distância do canhão de Hidroxiapatita
ao substrato (implante ), velocidade do movimento do canhão de Hidroxiapatita,
distribuição do tamanho das partículas a serem aplicadas, massa do substrato,
densidade e fluxo de aplicação de Hidroxiapatita entre outros (Hurson 1993).
A única maneira de se avaliar a validade do uso de Implantes
com superfícies bioativas vem a ser através de estudos longitudinais prospectivos
como os apresentados por Kent et al (1990), Block et al (1993), Ham e Vassos
(1993) e Saadoun e Le Gall (1992) que demonstram um maior grau de sucesso longitudinal
em implantes revestidos com Hidroxiapatita em osso de baixa densidade e principalmente
quando do emprego de Implantes de 8 e 10 mm de comprimento.
A inserção de implantes endosseos requer volume ósseo
suficiente para a completa cobertura do implante. Em muitas situações o rebordo
remenescente. As necessidades e inquietudes para melhorar as condições anatômicas
e a morfologia óssea tem gerado o desenvolvimento de vários procedimentos cirúrgicos
para obtenção de aumento de volume ósseo incluindo o emprego de enxerto autógeno,
alógeno, de substitutos ósseos, emprego de regeneração tecidual guiada e de
fatores de crescimento, Smiler (1987), Calla (1990) Simion (1994), Becker (1990).
A literatura apresenta dados conflitantes sobre os resultados longitudinais
das diferentes técnicas de enxertos Ósseos usados para recompor estética, funcional
e biologicamente o tecido ósseo da região dento alveolar. Da mesma forma os
parâmetros de avaliação clínica e de seleção dos diferentes materiais de enxerto
ósseo para suporte de Implantes endo-ósseos não se encontram sedimentados. A
primeira opção em materiais para enxerto ósseo seria o emprego de osso autógeno
como no caso clínico aqui apresentado. O material é orgânico e seu emprego é
fundado nos conceitos de osteogênese, osteocondução e osteoindução óssea.
No que diz respeito a prótese optou-se por uma cimentada que
é mais simples de ser realizada permitindo uma melhor estética, utilização de
mesaoclusal em um único material e uma menor possibilidade de fratura da porcelana.
Com o emprego de cimento temporário a remoção da prótese em controles periódicos
profissionais pode ser facilmente obtida. Esta possibilidade de remoção temporário
seria a grande vantagem de próteses aparafusadas. Os princípios básicos da construção
de próteses parciais fixas sobre implantes na região inferior posterior onde
normalmente encontramos altura óssea não maior do que 14 mm e direcionamento
ósseo de inserção de implantes lingu-vestibular se encontram na literatura (Misch
1992).
Profissionais trabalhando com implantes devem estar
familiarizados com os parâmetros científicos que determinam a qualidade de superfície
de implante de modo a potencializar o uso adequado de diferentes desenhos e
superfícies para um melhor resultado clínico alongo prazo.
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*
Professor do Curso de Atualização em Implantologia UGF
** Professor colaborador da disciplina de Prótese Fixa UERJ
*** Professor da Disciplina de Periodontia da UNIG Nova Iguaçu, Professor do
Curso de Atualização em Implantologia UGF
**** Professor Titular da Disciplina de Prótese fixa UERJ