Implantes
de titânio, cilíndricos, com
superfície rugosa por jateamento
Considerações clínicas
e histológicas
José
Tadeu Tesseroli de Siqueira*
Pedro Velasco Dias**
Resumo:
A análise do comportamento histológico e clínico
de um implante cilíndrico com superfície rugosa é apresentada neste estudo.
Um bloco de osso ilíaco humano, contendo um implante submerso por um período
de 5 meses, foi preparado para análise em microscopia de luz. Um caso clínico
com 6 implantes na mandíbula é também apresentado para discussão complementar.
A superfície desses implantes é homogênea e regular, e obtida por tratamento
mecânico-químico, anteriormente descrito (Sistema INP) e semelhante a de 688
outros implantes colocados em: maxila (293), mandíbula (288), osso ilíaco (8),
tíbia de coelhos (93) e, para ancoragem ortodôntica (6). Todos esses implantes
foram colocados entre 1991 e 1995. As fotos da rugosidade da superfície foram
realizadas em microscópio eletrônico de varredura (MEV). A histologia apresentada
mostrou a capacidade de osteocondução e osteointegração dessa superfície, o
que é compatível com os resultados clínicos e experimentais obtidos nesse espaço
de 4 anos.
Unitermos:
Superfície de implantes, osteointegração, interface, jateamento,
osso ilíaco, microscopia de luz.
Abstract:
The histological analysis of one titanium dental implant
with a rough surface (sandblasted) is presented and compared with a clinical
report of osseointegrated implants. The bone with the implant was removed of
the iliac bone after 5 months from implantation. The surface is regular and
the same that of the 688 implants fixeds, respectively in: maxila (293), mandible
(288), iliac bone (8), tibia of rabbits (93) and orthodontic anchorage (6),
during the period between 1991 and 1995. The histological result showed osteoconduction
and osseointegration by the surface. This result is similar with
another clinical and experimental
results got during the 4 years.
Uniterms:
lmplantsurface, osseointegration, interface, sandblasting,
iliac bone, light microscopy. :
INTRODUÇÃO
O comportamento biológico do titânio, conferido
por sua característica de material cerâmico graças à camada de óxido em sua
superfície (Albrektsson et al., 1981), tornou-o indiscutivelmente o material
de eleição para confecção de implantes para osteointegração. Uma técnica cirúrgica
cuidadosa e atraumática é considerada outro fator essencial para facilitação
do processo inflamatório com o qual se inicia a formação ou remodelação óssea
ao redor do implante (Adell et al., 1981; Jansen et al., 1991). Desta forma
preservam-se células e fatores biológicos imediatamente envolvidos nesse processo
(Albrektsson, 1985). É importante lembrar que essa fase inflamatória é necessária
para a limpeza da região, para migração e proliferação celular e, finalmente,
para a neoformação óssea (Thonsen & Ericson, 1991) .A qualidade dos instrumentos
utilizados e o adestramento profissional estão diretamente envolvidos no controle
desta etapa cirúrgica (Wedgwood et al., 1992; Carvalho e cols, 1994, Siqueira
e cols, em, publicação), a qual tem por objetivo uma fixação do implante com
máxima intimidade ao osso (Carlsson et al, 1988; Satomi et al., 1988) e também
sua estabilidade imediata, de tal forma que suporte os traumas friccionais,
decorrentes da mastigação, sobre a gengiva.
Os implantes em forma de rosca se tornaram uma
escolha natural por essa razão (Adell et al., 1981 ; Albrektsson et al., 1981;
Carlsson et al., 1988). Todavia, tem
sido demonstrado que os implantes cilíndricos e inseridos sob pressão, também
alcançam a osteointegração (Maniatopoulos et al., 1986; Kent et al., 1990; Schroeder
, 1994), sendo que neste caso eles têm como característica a presença de uma
superfície rugosa que lhes aumentam o contato com o osso de forma semelhante
às roscas dos parafusos (Homsy et al., 1973). Portanto, independente do desenho,
a microtextura da superfície desempenha um papel de destaque na formação e remodelação
óssea na interface osso-metal (Thomas & Cook, 1985). Fatores como dimensão
das rugosidades, presença de contaminantes e limpeza da superfície ( Kasemo
& Lausma, 1988) são também considerados importantes para a resposta biológica
de curto e longo prazo.
Entre as opções para aumentar a superfície de contato
osso-implante está a confecção de rugosidades por jateamento. Dessa forma procuramos
discutir neste estudo uma superfície obtida nessas condições e semelhante à
utilizada, clínica e experimentalmente, em 688 implantes; bem como suas características
morfológicas e histológicas em um espécimen removido de osso ilíaco humano,
além de um caso clínico para exemplificar e complementar a discussão.
MATERIAL E MÉTODOS
Um bloco de osso
ilíaco, contendo um implante inserido há 5 meses e não aproveitado em enxerto
mandíbular, foi removido e preparado para a avaliação histológica.
Um caso clínico
com implantes mandibulares, bilaterais posteriores.
O estudo da superfície aqui apresentada foi descrito anteriormente (Siqueira e cols., 1996) e realizado por microscopia eletrônica de varredura em amostras de implantes cilíndricos, de titânio comercialmente puro, grau 2 (Figura 1), os quais são semelhantes a 581 outros colocados em maxilares, a 8 em osso ilíaco para enxerto ósseo mandibular, a outros 93 colocados em tíbias de coelhos, além de 6 implantes utilizados para ancoragem ortodôntica (Sistema INP).

Fig. 1 - Metalografia
do implante cilindrico INP, área correspondente às roscas internas
(para adaptação do munhão), mostrando os grãos de
titânio grau 2.
Fig. 2 - Desenho do implante INP em microscopia eletrônica de varredura
(7,89X):
Colo (C), Corpo com sulcos (S), e Porção apical (A).

Fig. 3 - Superfície
do implante INP observada em microscópio eletrônico de varredura
A - Área do corpo mostrando os sulcos regulares e superfície homogênea.
B - Detalhe das rugosidades com aumento de 1630 vezes.
Superfície dos
Implantes
Exceto a região do colo, todo o resto do implante
é rugoso por tratamento mecânico-químico e esterilizado por radiação gama
de 25 rads (Embrarad, São Paulo). Sua superfície apresenta-se homogênea e
regular (Figura 3).
Técnica Cirúrgica
Realizada, de acordo com as técnicas preconizadas
para osteointegração, em duas fases e com até 1700 rpm. As perfurações dos
orifícios devem ser abundantemente irrigadas com solução salina e realizadas
em sequência até atingir o diâmetro final desejado. Após a última perfuração,
a loja óssea é novamente lavada com solução salina e o implante deve ser inserido
só quando as paredes dessa loja estiverem cobertas de sangue. É importante
evitar o trauma dentro da loja óssea, quer através de curetagem grosseira,
quer através do uso inadequado de aspiradores. A colocação do implante é inicialmente
por pressão manual, o que significa que no máximo a sua região apical entra
dessa forma. A complementação da fixação deve ser sob ação de martelo através
de um bate-implante (Siqueira e cols., em publicação). O colo deve ficar submerso
e o implante estável e intimamente fixado ao osso como condição indispensável
para máxima previsibilidade de sucesso clínico. Se a estabilidade do cilindro
for conseguida só pelo colo, ou seja ele entrou com muita facilidade, deve
ser removido e substituido por um de diâmetro superior.
Procedimento
histológico
A amostra aqui apresentada foi, após removida em conjunto
osso-implante, fixada em formol a 10%. A seguir desidratada gradativamente
por técnica convencional, incluída em resina (Osteo Bed) e cortada, sem remoção
do implante, em micrótomo com disco de diamante (Leica 1600). A espessura
final dos cortes foi de aproximadamente 15 mm para análise em microscopia
de luz.
Caso Clínico
Mulher, 45 anos, com perda dos dentes posteriores
mandibulares, bilateralmente. Recebeu, sob anestesia local (prilocaína a 3%
com octapressin), 3 implantes de cada lado, em região de pré-molares e molares,
sendo que à direita os implantes em pré-molares foram imediatos. A colocação
dos implantes seguiu a técnica citada acima. Os implantes foram abertos 3
meses depois e duas próteses fixas, parafusadas, em metalo-plástica, foram
confeccionadas (Figuras 4). A paciente foi, posteriormente, submetida a outra
cirurgia para colocação de implantes na maxila e o molar (18) foi removido
(Figura 4A).

Fig. 4a - Radiografia
panorâmica à época da reabertura dos implantes
Fig 4b - Aspecto clínico dos 44, 45 que foram implantes imediatos: observar
o crescimento ósseo sobre o 44.

Fig. 4c - Aspecto da gengiva
15 dias após a abertura e uso de cicatrizantes
Fig. 4d - Aspecto gengival com os cicatrizantes
Fig. 4e - Aspecto gengival
com os munhões coifa
Fig. 4f - Prótese metalo-plástica parafusada
Fig. 5 - Corte histológico
do implante INP (que corresponde à parte em negro) junto com o osso ilíaco
A - Região dos sulcos - B - Região do orifício transpassante
apical (N- osso neoformado, O- osso antigo
M- espaço medular, i- interface osso-implante)
RESULTADOS
Os cortes histológicos mostram o preenchimento de todos
os sulcos do implante por osso neoformado e sem interposição de tecido fibroso,
havendo também um significativo contato osso-implante (interface) em todas as
regiões (Figura 5), embora esse osso seja essencialmente medular. Nesta fase
não se observa mais a linha de necrose típica do corte ósseo provocado pela
broca. Na região correspondente ao orifício apical também pode ser observado
osso neoformado e o seu contato com o implante.
No caso clínico pode ser visto o crescimento ósseo sobre
os implantes à fase de abertura, e exatamente na região em que foram colocados
imediatamente após a extração dos pré-molares (44,45). Todos os 6 implantes
estavam imóveis e com ruído característico da osteointegração, sob o ponto de
vista clínico. O implante imediato colocado na posição do 44 apresentou crescimento
ósseo sobre ele, à fase de reabertura (Figura 4B).
DISCUSSÃO
A superfície avaliada apresenta-se regular e homogênea
(Figura 3A, B), como tem sido preconizado por diversos autores, para facilitar
um máximo de contato do implante com o osso durante sua colocação, reduzindo
o risco de tecido fibroso na interface (Carlsson et al., .1988), bem: como para
evitar o deslocamento de partículas ou cavacos de metal, agregadas pelo processo
de usinagem, durante o atrito da colocação intraóssea, podendo isto ser evitado
ou minimizado por tratamento mecânico e químico (Schliephake et al., .1993).
Embora o grande volume de informações científicas sobre o
estudo da osteointegração tenha sido realizado em implantes na forma de parafuso
(Branemark et al., .1977), outros autores têm demonstrado a possibilidade da
formação óssea na interface; sem tecido fibroso, também em implantes cilíndricos
porosos por aposição (Schroeder, .1994) ou jateamento (Buser et al., 1991;
Gotfredsen et al., 1992), o que foi compatível com o aqui apresentado, quer
no caso clínico, quer no espécimen histológico, onde pode ser evidenciado o
fenômeno da osteointegração (Figuras 5A,B), sugerindo que nestes implantes cilíndricos
para fixação por pressão, os sulcos regulares permitem um crescimento ósseo
durante o período inicial de cicatrização e uma manutenção no período pós-carga,
conforme foi observado na mandíbula da paciente.
Que se conheça até o presente, esta é a primeira publicação
mostrando uma interface do conjunto osso- implante em humanos e em cilindros
de titânio de procedência brasileira.
Concluindo, essa superfície mostrou, na análise realizada,
seu potencial de osteocondução e osteointegração. Estudos experimentais e clínicos,
utilizando a mesma superfície, confirmam esses resultados. Todavia, considerando
que os espaços podem ser críticos para uma interface adequada, uma íntima relação
com o osso deve ser obtida durante a fase cirúrgica e, tendo em mente a importância
de manter a vitalidade do tecido ósseo na área de corte, essa atenção deve estar
aumentada em ossos do tipo 1, como é o caso da mandíbula anterior.
Agradecimentos:
Ao Dr. Roland Meffert e à Sra. Sonja A. Bustamante da Universidade
do Texas, USA, pelos cortes histológicos. Aos Drs. Munir Salomão e Celso de
Castro Jr. pela participação nas cirurgias dos casos apresentados, ao Dr. José
Henrique Cavalcanti pela foto da Figura 3A e ao Eng. Nillo Stival do Sistema
INP.
Correspondência:
Dr. José Tadeu Tesseroli de Siqueira, Grupo de Dor
Orofacial, Divisão de Odontologia, 6º. Andar, Sala 2, PAMB, Hospital das
Clínicas, FMUSP, Av. Dr. Enéas Carvalho de Aguiar, Cerqueira César , São Paulo.
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