Implantes com cobertura de hidroxiapatita
Uma Análise Clínica Retrospectiva de 3 anos

Mario Groisman*, Alber Barbara**, N. David Harari***

RESUMO

O objetivo deste estudo clínico retrospectivo foi apresentar os resultados de 3 anos de uso de 904 implantes com cobertura de hidroxiapatita instalados em 339 pacientes da clínica de um dos autores. Os resultados demonstram uma taxa de sobrevida total de 96.59%.

UNITERMOS

Implantes dentais, biointegração, hidroxiapatita, estudo longitudinal retrospectivo.

ABSTRACT

The aim of this restrospective clinical study was to present a literature review and an analysis of the clinical predictability and indication for the use of hydroxilapatite coated dental implants.

KEYWORDS

Dental implants, biointegration, hydroxilapatite.

INTRODUÇÃO

    O uso de implantes dentais na reabilitação oral de pacientes com edentulismo total e parcial encontra-se sedimentada na literatura (Adell et alii 1,1981, Branemark et alii 7, 1985, Jemt et alii l4, 1989, van Steenberghe et alii 24, 1990, Olsson et alii 21, 1995).Vários fatores devem ser considerados na avaliação de um paciente para instalação de implantes. Dentre esses fatores, qualidade óssea que diz respeito à densidade do tecido ósseo remanescente vem a ser um dos determinantes da previsibilidade da técnica (Misch 20, 1993).

    Lekholm & Zarb 17 (1985) classificaram o tecido ósseo com base na sua qualidade: Osso tipo I apresenta uma cortical compacta e um osso medular homogeneamente compacto. Osso tipo II apresenta uma compacta densa e osso medular também denso. Osso tipo III encontra uma cortical fina e medular densa, e osso tipo IV apresenta compacta fina e baixa densidade trabecular do osso medular.

    Jaffin & Berman l3 (1991) em estudo retrospectivo de 5 anos com implantes de titânio puro apontam para uma taxa de insucesso superior a 30% nas instalações em osso tipo IV. A retenção desses implantes de titânio é feita em níveis macroscópicos, por fendas, roscas, túneis e envolve o contacto direto entre a superfície oxidada (passivada por um óxido) do implante e o tecido ósseo e em nível microscópico pela rugosidade das superfícies, permitindo uma íntima união entre o tecido ósseo e o implante sem ocorrência de ligações químicas (Meffert 18, 1989).

    O uso de implantes cobertos com hidroxiapatita introduziu novo tipo de interface, onde se observa uma união química do osso com proximidade do tecido ósseo com a superfície dos implantes. Este tipo de situação é alcançado através da aplicação por plasma spray de uma camada de hidroxiapatita de 50 a 70 µm de espessura sobre o corpo metálico do implante. A hidroxiapatita é um material denso e policristalino, não poroso, que fica incorporado no tecido vivo (Krauser 16, 1989).

    As propriedades do material, biocompatibilidade, e sucesso clínico dos implantes com cobertura de hidroxiapatita foram demonstradas em vários estudos (Tidwell et alii 23, 1992; Block & Kent 5, 1994; Guttenberg 12, 1994; Biesbrock & Edgerten 4, 1995; Buchs et alii 9, 1996).

    O objetivo deste estudo foi apresentar os resultados de 3 anos de uso de implantes Steri-Oss com cobertura de hidroxiapatita e avaliar a eficácia desses implantes em uma população com diferentes necessidades restauradoras.

MATERIAIS E MÉTODOS

    Durante um período de 3 anos, de maio de 1993 a junho de 1996, 339 pacientes tratados na clínica de um dos autores receberam 904 implantes com cobertura hidroxiapatita.

    A seleção de pacientes foi realizada partindo-se da premissa de que implantes, que visam substituir proteticamente os suportes dentários poderiam auxiliar na reabilitação funcional e estética de edentulismo total ou parcial. Na anamnese os critérios de exclusão foram: os pacientes que apresentavam alterações na resposta imune, assim como, alterações não controladas do sistema cardiovascular e do sistema metabólico. Todos os pacientes foram recebidos em consultas preliminares. Após avaliação clínica e com base no exame radiográfico, o planejamento protético-cirúrgico foi realizado e discutido com o paciente, tendo em vista a eliminação de dúvidas, sobre limitações e considerações estéticas, funcionais e higiênicas.

    Os procedimentos cirúrgicos e reconstrutivos foram realizados como especificados no manual da Steri-Oss para assegurar padronização de equipamentos da mesma forma que técnicas cirúrgicas e reconstrutivas. Amoxicilina ou cefalosporina foram os antibióticos empregados em todos os casos tratados. Recomendou-se cada paciente o início da antibioticoterapia, via oral, dois dias antes do ato cirúrgico, com uma dosagem de 1,5 gramas ao dia. Esta medicação foi mantida por mais sete dias após a cirurgia (Misch 19, 1992).

    Foi confeccionada, para a maioria dos pacientes uma guia cirúrgica, ou a prótese presente foi perfurada para determinar a correta posição dos implantes.

    No arco superior o tempo entre instalação e conexão dos implantes foi de 6 meses e de 3 no arco inferior .

    Dos pacientes tratados, 133 eram do sexo masculino e 206 do sexo feminino, com idades variando de 19 a 80 e média de 51 anos. Destes pacientes, 3 morreram e 31 não foram examinados nos últimos 12 meses, o que representou uma saída de 53 implantes do universo total de 904. Dos 851 implantes, 255 foram instalados em arcos edentados totais, 415 em arcos parciais, e 181 para o restabelecimento protético de elementos unitários. A instalação incluiu 385 implantes na mandíbula e 466 na maxila, sendo 552 cilíndricos e 299 parafusos. A escolha do uso de implantes cilíndricos versus parafusos foi baseada na largura óssea e no objetivo de uma melhor estabilização primária e um menor trauma cirúrgico.

Tipo

1994

Total     Falha

1994

Total     Falha

1995

Total     Falha

1996

Total     Falha

1993

Total  Falha  % Sobr.

CIL
99      02
194     07
182     03
77      01
552     13     97.64
PAR
09      00
79      02
193     11
18      03
299     16     94.65
TOTAL
108     02
273     09
375     14
95      04
851     29     96.59

Tabela 1 - Distribuição de dois tipos de implantes cobertos com hidroxiapatita durante três anos:

    Para ser considerado insucesso o implante deveria apresentar mobilidade ou evidência radiográfica de perda óssea maior do que 1/3 do comprimento total do implante ou radiolucência peri-implantar, fratura, esfoliação, remoção ou não uso do implante por qualquer razão, e paciente apresentando sensibilidade ou dor. Uma vez considerado, falho o implante mesmo tratado ou substituído não pode ser reclassificado como sucesso.

    A taxa de sobrevida dos implantes foi determinada do momento da instalação ate a última visita de controle. De um modo descritivo a taxa de sobrevida foi calculada em termo de percentagem.

RESULTADOS

     A taxa de sobrevinda foi de 97,64% e 94,65%, para cilindros e parafusos respectivamente. Na Tabela 1 a distribuição do número total de implantes instalados de acordo com o tipo, o ano, as falhas e a forma dos implantes cilindros e parafusos são apresentadas.

    Os implantes instalados variavam em comprimento de 10,12, 14 e 16mm e em diâmetro de 3.25, 3.8 e 4.5mm. Dos 29 implantes perdidos, 19 eram implantes de 10 e 12mm de comprimento distribuídos como demonstrado na Tabela 2. Foram considerados insucessos 13 dos 385 implantes instalados na mandíbula, e 16 dos 466 instalados na maxila.

DISCUSSÃO

    Torna-se claro na literatura, que implantes com cobertura de hidroxiapatita ou com titânio puro apresentam taxas de sucesso superior a 90%, quando instalados em osso tipo I (Block et alii, 1996). A taxa de sucesso de implantes pode ser colocada como sendo proporcional ao comprimento do implante e à quantidade e qualidade do osso remanescente. Denissen et alii 10 (1989) e Zablotsky et alii 25 (1992) recomendam implantes cobertos com hidroxiapatita para sítios onde qualidade e quantidade óssea, estão comprometidas.

     Implantes cobertos com hidroxiapatita têm sido utilizados na clínica por mais de 10 anos (Biesbrock & Edgerten 4, 1995). No entanto, segundo Albektsson & Sennerby 3 (1991), as indicações de uso e previsibilidade dos implantes com cobertura de hidroxiapatita continuam controversas. Talvez o argumento mais forte contra o uso de implantes cobertos com hidroxiapatita, como procedimento de rotina, poderia ser a falta de documentação a longo prazo sobre a taxa de sucesso da mesma forma que 4 implantes de titânio. Realizar comparações entre resultados de estudos de implantes com cobertura de hidroxiapatita e implantes de titânio puro vem a ser uma tarefa delicada (a ser realizada, principalmente, devido ao grande número de variáveis envolvidas, tais como: protocolo cirúrgico, experiência do cirurgião, seleção de caso, número e comprimento dos implantes, tipos de restaurações e critérios de sucesso empregados. No entanto, deve-se considerar que os métodos atuais de aplicação de hidroxiapatita em um substrato a ser implantado permitem uma resistência maior às forças interfaciais de 5 a 8 vezes superior aos implantes metálicos (Cook et alii 8, 1987).

    Saadoum & Le Gall (1992) em um estudo com 673 implantes instalados em 280 pacientes durante 5 anos, demonstraram que implantes de 8mm cobertos com hidroxiapatita apresentam uma taxa de sucesso duas vezes superior a de implantes de titânio puro. No que diz respeito aos implantes de 12,14 e 16mm os autores não demonstraram diferenças em taxa de sucesso dos implantes com titânio puro e dos cobertos com hidroxiapatita.

    Buchs et alii 22 (1995) apresentaram um estudo prospectivo multi-centro, de 6 anos com 2.372 implantes Steri-Oss cobertos com hidroxiapatita. A taxa cumulativa de sucesso nos seis anos pós-procedimento restaurador foi de 94,7%.

Diam.
Comp.

1993

Total    Falha

1993

Total    Falha

1993

Total    Falha

1993

Total    Falha

1993 a 1996

Total     Falha   % Sobr.

C

I

L

3.25
10
28     00
55     01
15     02
12     00
110              03            97.27
12
37     01
62     03
60     01
24     00
183              05            97.27
14
10     00
26     01
43     00
28     00
107             01             99.07
16
02     00
06     01
04     00
00     00
012             01             91.67
3.80
10
08     00
03     00
08     00
01     01
020             01             95.00
12
09     00
17     00
28     00
04     00
058             00            100.00
14
05     01
23     01
19     00
06     00
053              02              96.23
16
00     00
02     00
05     00
02     00
009             00            100.00

P

A

R

3.25
10
00     00
03     00
15     05
00     00
018             05              72.22
12
02     00
11     00
29     01
03     01
045             02             95.56
14
02     00
05     00
13     00
01     00
021             00            100.00
16
00     00
02     00
05     00
02     00
009             00            100.00
3.80
10
00     00
07     00
05     00
00     00
012             00            100.00
12
01     00
27     00
27     00
02     01
057             01              98.25
14
02     00
12     01
42     04
02     00
058             05              91.38
16
00     00
03     00
18     00
03     01
024             01              95.83
4.50
10
00     00
05     00
02     00
00     00
007             00            100.00
12
02     00
03     01
10     01
03     00
018             02               88.89
14
00     00
03     00
19     00
00     00
022             00              100.00
16
00     00
00     00
12     00
02     00
014             00              100.00

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tabela 2 - Distribuição de implantes de acordo com o tipo, diâmetro, comprimento por ano e suas falhas com a representação da % total de sobrevida:

    Os menores percentuais de sobrevida foram observados para implantes de 10 e 12mm de 3.25mm de diâmetro e com forma de parafuso. Pode-se especular que estes menores percentuais de sobrevida devem-se ao fato desses implantes serem os mais empregados em sítios de pouca largura e altura óssea, o que muitas vezes faz com que vestibular e lingualmente as roscas dos implantes promovam um maior stress nestas tábuas ósseas basicamente compostas de osso cortical de baixa vascularização.

    Denissen et alii 10 (1989), Kent et alii 15 (1990), Gole & Krauser 11 (1992), Saadoum & Le Gall 2l (1992), Buchs alii 9 (1996) apresentam resultados com uma taxa de sucesso para implantes revestidos com hidroxiapatita que varia de 93,2 a 98,5%. Em um trabalho de revisão de literatura Biesbrock & Edgerton 4 (1995), relataram a taxa de sucesso de 99% de implante de titânio puro na região anterior da mandíbula e de 92% na região interior da maxila. No entanto, a validade deste tipo de comparação direta inter-estudos pode ser questionada, principalmente pelo grande número de variáveis existentes.

    No presente estudo os critérios de seleção de pacientes permitiram a realização de casos com diferentes necessidades restauradoras com o intuito de refletir população alvo de uma clínica particular e portanto os resultados devem ser utilizados dentro desta perspectiva que corrobora com os objetivos de Buchs et alii 9 (1996) e Saadoum & Le Gall 22 (1992), mas não como os dos estudos de van Steenberghe et alii 24 (1990) e Adell et alii l (1981).

    O nível de sucesso dos implantes biointegrados é apresentado como maior do que 90%, onde os resultados aqui apresentados com implantes revestidos com hidroxiapatita corroboram com os estudos de Albrektsson 2; 1988, Saadoum & Le Gall 2, 1992; Buchs et alii 8.9, 1995 e 1996; Block et alii 6, 1996.

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* Professor da Disciplina de Periodontia da UNIG Nova Iguaçu, Professor do Curso de Atualização em Implantodontia UGF.

** Professor do Curso de Atualização em Implantologia UGF

*** Pós-graduado na Universidade Gotemburgo (Suíça), Prof. do Curso de Atualização em implantodontia UGF.