Avaliação morfológica de osteoblastos humanos
cultivados sobre titânio puro e
titânio recoberto com hidroxiapatita

 M.H. Prado da Silva, J.H.C.Lima; G.D.A. SOARES, C.N. ELIAS,
H. Schechtman, S.M. BEST, I.R. Gibson, L. DISILVIO, M. DALBY,


Introdução
         O processo de formação de osso novo é complexo e envolve a interação de uma grande variedade de células e condições de superfícies. As células osteogênicas são os osteoblastos e os condroblastos. Uma medida da capacidade osteoindutora dos materiais bioativos é a diferenciação de células precursoras nessas células (OHGUSHI et al., 1996B). Vários fatores locais ajudam a determinar a diferenciação das células precursoras dos osteoblastos. O tipo de rugosidade também determinará o número e tipos de ancoragens focais das células com seu substrato. Observa-se que em supefícies rugosas, as células formam camadas que cobrem os vales entre os picos (BOYAN et al., 1996). Estudos recentes indicam a importância da caracterização metalúrgica e biológica de superfícies de biomateriais (DA SILVA et al, 1998A; DA SILVA et al, 1998B; PRADO DA SILVA, 1999).


          As interações entre as células e os biomateriais é favorecida pela absorção de proteínas às superfícies. Os recobrimentos com fosfatos de cálcio têm a vantagem de facilitar esse processo de absorção. Dentre os fosfatos de cálcio, a hidroxiapatita (Ca/P=1,67) é o que tem maior capacidade de adsorver proteínas a sua superfície (TAKASHIMA et al.,. 1996).

          No presente trabalho, osteoblastos humanos foram cultivados sobre quatro diferentes substratos metálicos: três placas de titânio comercialmente puro com diferentes níveis de rugosidade e uma placa de titânio comercialmente puro recoberta com hidroxiapatita. Os substratos foram primeiramente observados em microscopia eletrônica de varredura. Os testes de cultura de células indicaram uma melhor
resposta celular ao substrato recoberto com hidroxiapatita.

Palavras-chave
          Titânio, hidroxiapatita, osteoblastos

Keywords
         Titanium, hydroxyapatite, osteoblasts

Resumo
         A resposta celular ao titânio recoberto com hidroxiapatita tem sido estudada por diversos autores. O método mais utilizado para investigação da morfologia celular in vitro tem sido a microscopia eletrônica de varredura (MEV). É reconhecido que os implantes recobertos com hidroxiapatita apresentam uma melhor resposta óssea nos estágios iniciais de recuperação, quando comparados a implantes de titânio puro não recobertos. No presente estudo, placas de titânio
comercialmente puro com diferentes níveis de rugosidade foram utilizadas como substrato para cultura de osteoblastos humanos em comparação com placas recobertas com hidroxiapatita. Observou-se que as placas recobertas com hidroxiapatita apresentaram espraiamento dos osteoblastos, além de inúmeros processos citoplasmáticos quando comparadas a placas de titânio puro.

Abstract
             Cell response to titanium coated with hydroxyapatite has been studied by several authors. The most used method for in vitro investigation of cell morphology is scanning electron microscopy (SEM). Hydroxyapatite coated implants are known to show a better bone response in the early stage of healing, when compared to uncoated implants. In the present paper, commercially pure titanium plates with different surface roughness levels were used as substrates tor human osteoblasts culture in comparison to hydroxyapatite coated plates. It was observed that the hydroxyapatite coated plates showed osteoblasts spreading with many cytoplasmatic processes when compared to uncoated plates. .,


Materiais e métodos
       Foram estudadas quatro diferentes superfícies: amostras usinadas, amostras jateadas com alumina, amostras recobertas com titânio por aspersão térmica a plasma e amostras recobertas com hidroxiapatita por um processo eletrolítico.


       Foram utilizadas amostras de 10x 10x 1 mm para este estudo. Uma amostra de cada condição foi utilizada para análise da morfologia das superfícies e análise química semi-quantitativa por energia dispersiva (EDS) em MEV. Duas amostras de cada condição que foram utilizadas para os testes de cultura de células.: As chapas foram limpas em acetona em banho ultra-sônico e esterilizadas sob irradiação de Raios-Gama com uma dose de 27,4 KiloGray.

       Os osteoblastos humanos foram cultivados em frascos de cultura estéreis Falcon de 75cm2 e 15Ocm2 a 37°C em uma atmosfera umidificada com fluxo de 5% CO2. Utilizou-se como meio de cultura o MEIO DE EAGLE MODIFICADO POR DULBECCO (DMEM) suplementado com 10% de soro fetal bovino (FCS), 1% de aminoácidos não essenciais (NEAA), ácido L-ascórbico (150gml-l), L-glutamina (0,02M), C5 H10 N2O3 (HEPES) em solução 0,01M, 100 unidades mI-l de penicilina e 100 mg mI-l de estreptomicina, como descrito no Apêndice I. A exceção do ácido L-ascórbico suprido por Sigma (Poole, UK), todos os
outros componentes foram supridos por Gibco (Paisley, UK).

    Após atingirem confluência, as células foram coletadas seguindo-se o procedimento de tripsinização descrito no Apêndice I. A suspensão de células foi recentrifugada a 683 rpm por 5 minutos e o aglomerado de células foi resuspensa em DMEM utilizando-se uma seringa para quebrar os aglomerados de células. A suspensão original de células foi diluída para alcançar a densidade requerida. A suspensão obtida foi passada por uma pipeta Pasteur para garantir uma dispersão homogênea de células no meio antes de semeá-las nos substratos.


    As placas foram posicionadas nos poços dos frascos multi-well estéreis Falcon e semeadas com uma densidade de aproximadamente lxl0 6 células ml-l, sendo que aproximadamente 50ml da suspensão foram semeados sobre cada amostra. A suspensão foi deixada repousar sobre cada amostra durante 60 minutos antes de completar o volume de cada poço com DMEM. Durante esse tempo, permitiu-se que as células aderissem às superfícies sobre as quais foram semeadas. As culturas foram encubadas durante 2 dias. O meio de cultura foi apropriadamente
trocado em intervalos de dois ou três dias. Os frascos multi-well foram separados de acordo com a finalidade da cultura e do ponto de tempo utilizado.

      As análises topográficas em MEV revelaram que a amostra usinada apresentou a superfície livre de rebarbas provenientes do processo de
usinagem. Na amostra recoberta com alumina, foram observadas algumas partículas, identificadas em EDS como sendo partículas de alumina, provenientes do processo de jateamento. A amostra jateada com pó de titânio apresentou uma superfície bastante rugosa, porém homogênea e aparentemente bem aderida ao substrato. A amostra recoberta com titânio por aspersão térmica e plasma revelou uma superfície rugosa, totalmente recoberta por cristais de hidroxiapatita.



   A Figura 1 apresenta um difratograma de EDS da amostra jateada com alumina, onde pode-se observar o pico correspondente ao elemento alumínio.



   


   As Figuras 2a-2d apresentam os resultados de observação em MEV das células cultivadas sobre os diferentes substratos.

   Figura 1 - Morfologia dos osteoblastos cultivados durante 2 dias: (a) amostra usinada; (b) amostra jateada com alumina; (c) amostra recoberta com titânio por aspersão térmica a plasma; (d) amostra recoberta com hidroxiapatita pelo processo eletrolítico.


    A superfície usinada apresentou camadas de células e células esfereoidizadas em fase de divisão celular. A amostra recoberta com alumina apresentou células bastante esferoidizadas e pouco sinal de espraiamento celular. Esse resultado indica uma superfície imprópria para a adaptação das células, resultado esse que pode ser atribuído à presença de partículas de alumina presentes nessa condição de superfície. A amostra recoberta com titânio por aspersão térmica a plasma apresentou uma resposta celular muito boa, com células bastante espraiadas. Observou-se que a superfície recoberta com hidroxiapatita apresentou os osteoblastos mais espraiados e com o maior número de processos celulares se projetando para a superfície. Esse fato indica uma melhor ancoragem dos osteoblastos a essa superfície.

Conclusões
    A análise em EDS detectou a presença de partículas de alumina na amostra jateada. Esse resultado indica a importância dos tratamentos de limpeza e descontaminação de superfícies potencialmente utilizadas como implantes, como ressaltado por diversos autores.

    A observação em MEV se mostrou eficiente na avaliação da
morfologia dos osteoblastos humanos.

   A superfície recoberta com hidroxiapatita apresentou os osteoblastos mais espraiados dentre todas as condições de superfície analisadas.

   Na amostra recoberta com hidroxiapatita, foram identificados inúmeros processos celulares se projetando para os cristais de hidroxiapatita, fato que indica uma boa adesão dessas células a esta superfície.

Referências Bibliográficas

  1. TAKASHIMA,S.;HAYAKAWA,S.;OHTSUKI,C.;OSAKA,A., 1996, "Adsorption of Proteins by Calcium Phosphate with Varied Ca to P Ratios", Bioceramics, Vol. 9, pp. 217-220.
  2. OHGUSHI,H.; DOHI,Y.; KATUDA,T.;TAMAI,S.;TABATA, S.; SUW A, Y ., 19968, "In Vitro Bone Formation by Rat Marrow Cell Culture", Journal of Biom. Mater. Research, Vol. 32, pp. 333-340.
  3. BOY AN, B.D.; HUMMERT, T.W.; DEAN, D.D.; SCHWARTZ, Z., 1996, "Roloe of Material Surface in Regulating Bone and Cartilage Cell Response". Biomaterials 17, pp. 137.
  4. PRADO DA SILVA, M. H., 1999, Recobrimento de Titânio com Hidroxiapatita: Desenvolvimento do Processo de Deposição Eletrolítica e Caracterização Biológica In Vitro. Tese de doutorado, COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro,Brasil.
  5. DA SILV A, M.H.P.; ELIAS, C.N.; CAVALCANTI, J.H..; PINTO, M.A.; GIBSON, I.R.; BEST, S.M.; SOARES, G.A., 1998A, "Técnicas de Caracterização da Superfície de Implantes Odontológicos", IV Fórum Nacional de Ciência e Tecnologia em Saúde e XVI Cong. Bras. de Eng. Biomédica, Curitiba, 1.8 a 22 oct. 98, Anais: pp. 5-6.
  6. DA SILVA, M.H.P.; SOARES, G.D.A.; ELIAS, C.N. ; LIMA, J.H.C.; PELAJO-MACHADO, M.; BEST, S.M.; BONFIELD, W., 1998B, "Surface Characterisation of Titanium Implants", Materiais Congress, Cirencester, UK, 6-8 abril, pp.231.