Prótese
ocular retida em implantes osteointegrados
Caso Clínico
Luis Carlos Pinto FERREIRA
*
Lúcia R. Reis de A. CARV ALHO **
Adelino AraúJo M. M. Fé **
Germano Pinho de MORAES**
Pedro VELASCO DIAS*
RESUMO
Implantes
osteointegrados foram inseridos no rebordo orbitário superior de um paciente
que perdera o globo ocular em decorrência de um carcinoma epidermóide na pálpebra
esquerda. A retenção da prótese através de munhões bola facilita o seu uso e
aumenta a confiança do paciente para suas atividades habituais, diminuindo o
risco de queda ou deslocamento da mesma. Este caso faz parte de um programa
desenvolvido no Hospital São Marcos em Terezina para reabilitação de deformidades
faciais em pacientes vítimas de neoplasias. É desenvolvido por uma equipe multidisciplinar,
incluindo cirurgiões-dentistas de várias especialidades e médicos.
ABSTRACT
A clinical report is described. The patients have
received a orbital prosthesis for facial rehabilitation after have removed a
carcinoma. The multidisciplinare team is very important to this...
PALAVRAS CHAVES
Osseointegração, implantes dentários, sequela facial,
reabilitação, tumor.
KEYWORDS
Osseointegration, dental implants, facial rehabilitation,
tumour.
INTRODUÇÃO
Os requisitos básicos para se obter sucesso emI osteointegração
foram adequadamente relatados em estudos clínicos longitudinais (BRANEMARK et
al., 1977, ALBREKTSSON et al., 1981). Além do seu uso para reabilitação de próteses
dentárias na correção do edentulismo, os implantes têm sido amplamente utilizados
e indicados para reabilitações faciais em casos que não permitem uma boa resolução
através das próteses convencionais (HOLT, 1994; LEMON, 1996).
Muitas vezes os defeitos ósseos são tão extensos que
exigem o uso de enxertos em cirurgias reparadoras iniciais, nas quais os implantes
podem ser pré-fixados (BREINE & BRANEMARK, 1990).
No Brasil essa experiência tem se alastrado beneficamente
aos pacientes, embora o custo dos implantes e das próteses são algumas vezes
proibitivos e dificultam a amplitude do seu uso. Programas multidisciplinares
envolvendo hospitais e entidades privadas e empresas produtoras de implantes
podem facilitar a sua divulgação, reduzir o seu custo e permitir ao paciente
carente de diferentes centros de saúde do país, acesso a essa novidade tecnológica.
Reabilitação facial de pacientes com sequelas de traumas,
tumores ou distúrbios genéticos têm sido previamente relatados (VELASCO DIAS
e cols., 1997a; VELASCO DIAS e cols., 1997b). Esses pacientes melhoraram sobre-maneira
sua condição de vida e só foi possível esse tipo de reabilitação graças a formação
de grupos interdisciplinares provenientes de várias regiões do Brasil.
O objetivo desta apresentação é relatar um caso clínico
dentro dessa experiência multidisciplinar, envolvendo equipes de várias regiões
do país e o apoio da empresa privada produdora de implantes.
CASO CLÍNICO
12/02/97 -Homem branco de 57 anos apresentou
um carcinoma epidermóide moderadamente diferenciado na pálpebra esquerda. Apresentava
uma lesão ulcerosa destrutiva de comissura palpebral lateral esquerda que comprometia
a conjuntiva ocular e infiltrava-se no conteúdo orbitário. Foi submetido
a exerese do globo ocular esquerdo.
Outubro/1997 -Cirurgia para inserção de implantes
para osteointegração no rebordo orbitário superior esquerdo.
Março/1997- Todos os implantes estavam osteointegrados
e foi confeccionada uma prótese ocular retida em barra portadora do sistema
bola de encaixe (Figuras 1 a 4).

Fig. 1.
Aspecto facial do paciente após a colocação da barra retentiva
Fig. 2. Prótese ocular. Notar os detalhes de pigmentação do globo ocular
e da sobrancelha.
Fig. 3. As
2 peças retentoras no munhão bola já estão fixadas na prótese.
Fig. 4. Prótese colocada. Apresenta-se bem natural e é de fácil
manipulação pelo paciente.
DISCUSSÃO
Este caso apresentado não foi de difícil resolução técnica.
Todavia a dificuldade seria em relação à retenção e estabilidade da peça caso
não fossem utilizados implantes. Na prótese orbitária convencional, caso não
houvesse área retentiva, teria que se utilizar de outros recursos para fixar
temporariamente a peça no seu local. Esses artifícios restringem a liberdade
de movimentos e a confiança do paciente, pois a prótese pode deslocar-se com
certa facilidade.
As próteses maxilares retidas em implantes permitem
a reabilitação social, a exemplo da prótese convencional, mas adicionalmente
aumentam os ganhos psicológicos do paciente devido à sua fixação e estabilidade.
Devido às dificuldades econômicas da população brasileira,
principalmente de mutilados faciais, é indispensável a atuação multidisciplinar
e multicêntrica de profissionais envolvidos com esses pacientes. A participação
de empresas privadas é fundamental e tem um cunho social e altamente humanitário.
Em conclusão, o uso de implantes osteointegrados para
retenção de próteses orbitárias é, na maioria das vezes, de técnica simples
e já bastante utilizada. A participação de equipes multidisciplinares envolvendo
cirurgião buco-maxilo-facial, protesista, cirurgião de cabeça e pescoço e cirurgião
plástico, permite um planejamento adequado e um encaminhamento correto de cada
caso.
O paciente deve ser orientado, como de praxe, para os
retornos periódicos visando a higiene e o controle peri-implantar. Não esquecer
que nestes casos os munhões de titânio encontram-se em contato com o tecido
cutâneo e devem ser periodicamente inspecionados.
Agradecimentos:
Ao Dr. José Tadeu T. de Siqueira pela redação e revisão
do texto técnico. Ao Eng. Nillo Stival do Sistema INP pelo apoio ao programa
de reabilitação de mutilados faciais do Hospital São Marcos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRANEMARK P-I, HANSSON BO, ADELL R, BREINE U, LINDSTROM J, HALLÉN & OHMAN A. Osseointegrated implants in the treatment of the edentulous jaw. Experience from a 10-year period. Scand. J. Plast. Reconst. Surg. 1977, 11,Suppl.16:
HOLT RG. Osseointegrated implants in orodental and facial prosthetic rehabilitation. Otolaryng.Clin. Nort. Amer. Vol.27 (5):1001-1004, 1994.
LEMON JC, CHAMHERS MS, WESLEY PJ, REECE GP & MARTIN JW. Rehabilitation of a midface defect with reconstructive surgery and facial prosthetics: A case report. Int.J.Oral.Maxillofac Implants, 11:101-105, 1996.
BREINE U & BRANEMARK P-I. Reconstruction of alveolar jawbone. An experimental and clinical study of immediate and preformed autologous bóne grafts in combination with osseointegrated implants. Scand.J.Plast. Reconstr. Surg.14; 23-40, 1980.
ALBREKTSSON T, BRANEMARK P-I, HANSSON J-A & LINDSTROM J. Osseointegrated titanium implants. Requiriments for ensuring a long-Iasting, direct bone-to-implant anchorage in man. Acta Orthop. Scand. 52: 155-170, 1981.
VELASCO DIAS P, SALOMÃO M, SIQUElRA JTT & FERREIRA LCP. Implantes osteointegrados na reabilitação de pacientes com sequelas faciais. Considerações sobre uma amostra clínica. Rev. Bras. lmplant. Jan/Fev:21-25, 1997a.
VELASCO DIAS P, CARVALHO LRRA, FÉ AM, FERREIRA LCP, PINHO BP & SIQUEIRA JTT. Reconstrução facial com prótese ancorada em implantes osteointegrados. Apresentação de um caso clínico. Rev. Bras. lmplant. Jul/Ago:7- 11,1997b.
* Universidade Santa Cecília,
CETO
** Hospital São Marcos -Terezina/PI