Efeito
da aplicação tópica do flúor gel acidulado
sobre a superfície do titânio
Baltazar
Conz, M. *
Elias, C. N. * *
Chevitarese, O ***
SINOPSE
O objetivo do presente trabalho foi avaliar o comportamento superficial do titânio utilizado nas conexões de implantes osseointegrados quando em contato com o flúor tópico acidulado. Uma conexão de titânio vanádio alumínio foi analisada em Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV) .As análises foram realizadas em tempo zero, antes do emprego de gel de Flúor Fosfato acidulado e 4, 8 e 12 minutos pós imersão no gel de Flúor. Na análise da morfologia da conexão, antes e após os ensaios de imersão, observou-se reação entre o gel de flúor e a superfície do titânio, com mudança na aparência externa e formação de defeitos microestruturais com características de corrosão. Os resultados sugerem que a aplicação tópica de gel de Flúor fosfato acidulado deve ser cuidadosamente selecionada e prescrita em pacientes portadores de próteses osseointegradas com exposição da conexão de titânio.
PALAVRAS CHAVES
MEV, titânio, flúor, Corrosão.
SUMMARY
The aim of he present study was to evaluate the demonstrates behavior of titanium, utilized for manufactures the osseointegrated implants, when in contact with topical fluorides used in prevention. The results shown that the reaction between the topic solution and titanium caused corrosion. After analyzed the surface of the sample it was observed that the topical fluorite should not be used in patient with titanium implants.
KEY WORDS
Abtument, implant, titanium,fluoride.
INTRODUÇÃO
Implante é definido como um dispositivo particular para função "in vivo" feito à partir de um material biocompatível. Os implantes, além de cumprirem sua função, não devem fraturar, deteriorar ou de qualquer forma falhar "in vivo". Para prevenir a falha, deve-se realizar testes e uma análise do "stress" dos tecidos e do implante para selecionar materiais com propriedades mecânicas, físicas e químicas adequadas (5). Entre os materiais conhecidos e já testados como implantes orais o titânio demonstrou ser o mais biocompatível, por ser um metal que possui excelentes propriedades de superfície como: biocompatibilidade, textura, resistência à compressão, energia de superfície e resistência à corrosão (12). A superfície do titânio ou das suas ligas ao serem usinadas em contato com o oxigênio forma uma camada de óxido, que após alguns segundos possui 3-5 nm de espessura (4). Esta camada é muito resistente ao ataque químico e altamente protetora, fazendo com que o titânio seja um dos metais mais resistente à corrosão em condições fisiológicas. Nos implantes osseointegrados não há o contato entre o metal do implante e os tecidos hospedeiros, mas ocorre o contato da superfície externa oxidada dos implantes com os tecidos (2). A técnica cirúrgica dos implantes osseointegrados recomenda a instalação do implante propriamente dito e sua conexão de 3 a 6 meses após o procedimento inicial. Esta conexão une o implante a prótese. Em algumas, situações clínicas como, por exemplo, no emprego de sobre dentaduras o titânio das conexões e mantido exposto aos fluidos bucais. Vários fatores podem modificar a superfície das conexões expostas aos fluidos bucais. Alguns fabricantes recomendam o emprego de conexões em que a matéria prima e de ligas como Titânio vanádio Alumínio com o intuito de sobrepujar fatores modificantes. Um dos fatores de especial interesse vem a ser o emprego profilático de flúor em pacientes que apresentam risco a carie dental. Estudos prévios demonstraram que o ânion flúor é capaz de levar à corrosão de diferentes metais entre eles o Titânio 4, 6, 7, 8, 9, 10,11. Portanto o objetivo deste estudo foi avaliar o comportamento superficial do titânio utilizado nas conexões de implantes osseointegrados quando em contato com o flúor tópico acidulado.
MATERIAL E MÉTODOS
Conexão de titânio (abutment): Neste estudo foi utilizado uma conexão comercial de titânio vanádio alumínio utilizada para confecção das próteses de duplo aparafusamento fabricado pela steri-oss (PME). Apos a abertura do lacre,a conexão foi imediatamente colocada em um Microscópio Eletrônico de varredura JEOL, JUSM para microanálise semi-quantitativa com uma microsonda e análise de morfologia da superfície (T=O). Após documentação fotográfica a conexão foi embebida por 4 minutos (T=l) em gel de flúor fosfato acidulado (Odachan). Este gel apresenta 12.300 ppm de íons flúor em gel de ácido fosfórico. a 0,1 Molar. Em clínica recomenda-se a dose de 5ml para uma aplicação convencional, o qual contêm 61,5mg de íons flúor, deixando em contato com os dentes de l a 4 minutos.Neste experimento o tempo empregado foi de 4 minutos com duas repetições.
O gel de flúor foi depositado em um recipiente plástico com volume suficiente para manter um contato direto do flúor com a conexão. Após a submersão da conexão o recipiente foi submetido a agitação com ultra-som.
A seguir a amostra foi lavada com água destilada e foi observada no microscópio eletrônico de varredura para análise da superfície. Este procedimento foi repetido de modo que a analise de superfície fosse observada com os tempos: T=0 (antes do emprego do flúor), Tl= 4 minutos, T2= 8 minutos e T3 = 12 minutos.

| Figura 1 - Morfologia da superfície da amostra antes do ataque químico com flúor. (Aumento de 1000x) |
A B C

|
Figura 2 - Morfologia da superfície da amostra após o ataque químico com flúor. (Aumento de 1000x) A) após 4 minutos, observa-se o início da corrosão. B) após 8 minutos, observa-se aumento da corrosão; C) após 12 minutos, observa-se corrosão generalizada |
RESULTADOS
Como se pode observar na microanálise semiquantitativa com EDS indicou que a conexão empregada e de titânio vanádio alumínio. Quando a conexão foi analisada em microscópica Eletrônica de Varredura em T=0 observou-se irregularidade que foi feita propositalmente antes de ser levada ao rnicroscópio com uma broca esférica diamantada para que pudéssemos analisar a mesma área em todos os tempos de aplicação do flúor. Esta região foi analisada nos 4 tempos antes e após imersão.
Após 4 minutos de imersão no gel de Flúor (T=l) pode-se observar alterações superficiais com características de corrosão. Microconcavidades demonstram a provável reação de corrosão entre íons F e o titânio da conexão (Fig2).
Ao se analisar a superfície da amostra a olho nu, após a aplicação de flúor (4 min), observou-se uma mudança na sua coloração, a qual, inicialmente se encontrava com a cor metálica brilhante, após a imersão a amostra apresentou coloração acinzentada, havendo aumento acentuado da tonalidade cinza com novas imersões na solução. Ao ser analisada no microscópio eletrônico de varredura, com aumentos que variaram entre 50 vezes e 2000 vezes, observou-se sensível mudança na morfologia da amostra com a imersão (Figuras 1 e 2). Após 4 min de exposição da conexão de titânio ao flúor, ocorre o início da corrosão da superfície da amostra, com a formação de defeitos denominados pites (fig.2A). Após a exposição da amostra ao flúor por 8 e 12 min foi constatado um aumento gradativo da corrosão da superfície (fig.2B e 2C).
DISCUSSÃO
Os resultados deste trabalho indicam que a corrosão do titânio pelo flúor deve ser um fator a considerar antes do emprego na clínica do flúor gel acidulado. Fluoretos tópicos devem ser cuidadosamente prescritos para pacientes que possuem implantes e conexões de titânio. Futuras investigações da taxa de corrosão do titânio devem, ser realizadas para observar-se a interação entre o flúor e a camada de óxido do titânio. Não é possível predizer como a corrosão do titânio, pela ação do flúor, afetará a função do implante ou da conexão de titânio ao longo do uso "in vivo". Gould et all 3 descreveram pela primeira vez, o aspecto ultra estrutural da união entre as células epiteliais e a superfície do titânio, a qual ocorre de forma semelhante a superfície do dente, via lâmina basal e hemidesmossomas. A habilidade do epitélio oral em formar este tipo de inserção em um material de implante é um dos fatores responsáveis pelo fracasso ou sucesso clínico. Em pacientes com alto grau de acúmulo da placa bacteriana, associado a um severo grau de inflamação gengival, observados a nível da interface implante/conexão, demonstraram uma alta taxa na falha dos implantes (3), cerca de 80%. Com o ataque da superfície do titânio pelo fluoreto, a mesma se apresentará com maior grau de aspereza, devido a corrosão existente e irá favorecer o acúmulo da placa bacteriana que provavelmente agravará o problema do paciente. Existe também a necessidade de se verificar, através de pesquisas, se o epitélio oral será capaz de se unir a superfície do titânio que sofreu corrosão.
CONCLUSÃO
O presente estudo permite concluir que se deve evitar o uso do flúor na cavidade oral de pacientes que possuem implantes orais, pois se observou a degradação do implante com a aplicação de flúor, verificando-se que o aumento da corrosão é diretamente proporcional ao aumento do tempo de exposição do titânio ao fluoreto.
BIBLIOGRAFIA
* Professor do curso teórico-prático
de prótese sobre implantes ABO - D. de Caxias.
** Professor de
engenharia do IME .
*** Professor titular
de materiais dentários da UFRJ.