Implantes
Osseointegrados:
apenas um tempo cirúrgico
Tentativas de definir a osseointegração baseadas em critérios histológicos fracassaram. Zarb e Albrektsson, em 1991 sugeriram definir a osseointegração " como um processo clinicamente assintomático no qual uma fixação rígida de um material aloplástico no osso é obtida e mantida durante a ação de cargas funcionais. "
Prof.
Dr. David Serson*
INTRODUÇÃO
A sistemática
de implantação osseointegrada atualmente consiste em dois tempos cirúrgicos:
no primeiro é feita a abordagem do leito ósseo hospedeiro através de incisão
gengival, preparo da cavidade intra óssea e colocação do implante no alvéolo
artificial.
Após sua instalação o implante é fechado com um inserto vedante
( cover screw ou parafuso oclusor ou tapa-implante). Promove-se a sutura sobre
o plano ósseo, de modo a cobrir totalmente o implante e seu inserto.
Após um período de 4 a 6 meses em que o implante fica sepulto,
protegido da ação de forças mecânicas externas e da flora microbiana que habita
a cavidade oral - "cicatrização em silêncio" - é realizada a segunda
cirurgia com finalidade de "descobrir" o implante para dar início
a prótese.
Desde seu surgimento na segunda metade desse século os implantes
orais contribuíram como um recurso terapêutico de inestimável valor na substituição
dos dentes naturais perdidos. Todos os diferentes tipos e técnicas de implantes
apresentavam, e ainda apresentam nos dias atuais, vantagens e inconvenientes.
Mesmo os implantes osseointegrados, reconhecidos pela
comunidade científica mundial, pela sua previsibilidade e excelente desempenho
quando indicados, bem planejados e bem executados, seguem em protocolo rígido
com a finalidade de obter-se a melhor resposta biológica. Todavia, a premissa;
de sua realização com dois tempos cirúrgicos parece ser o maior inconveniente
desta técnica de imenso sucesso.
ASPECTOS PSICOLÓGICOS
.
Na abordagem para o segundo tempo cirúrgico, frequentemente
nota-se que os pacientes apresentam-se indóceis, intranquilos e muito tensos
perante a nova cirurgia a ser enfrentada. Embora, esta seja extremamente simples
e rápida, a atitude do paciente é inversamente proporcional ao trauma cirúrgico.
Considerando que o primeiro tempo cirúrgico - quando
da instalação do(s) implante(s) - apesar das manobras para abordagens do leito
ósseo receptor, preparo dos alvéolos artificais, colocação do(s) mesmo(s) e
sutura seja um ato complexo e sofisticado, verifica-se que via de regra os pacientes
o aceitam com relativa tranquilida-de porque deverá corresponder a sua expectativa
de "voltar a ter dentes", ou seja, é benvindo à sua terceira dentição.
O mesmo não ocorre no segundo tempo cirúrgico.
Após a espera daquele período de tempo necessário para que ocorra osseointegração
o paciente é "NOVAMENTE" informado da necessidade do "descobrimento"
do implante. Os implantologistas reconhecem que até a anestesia é difícil e
que os pacientes não aceitam a cirurgia da mesma forma como ocorreu na primeira
fase.
CAMINHOS PARA MUDANÇA
Durante a realização do 13º Congresso Paulista
de Odontologia em janeiro de 1988, houve um Simpósio de Implantes Orais com
a participação dos Simposiastas: Prof. Linghe, Prof. Branemark (em sua primeira
vinda ao Brasil), Prof. Simon Kon e o autor, além de expoentes da Odontologia
que participaram como ativadores. Após a brilhante exposição do Prof. Branemark
quanto aos resultados obtidos não só na Universidade de Gottemburg mas em todo
o mundo com a utilização de "fixações" (denominação dada aos implantes)
de titânio e seu sepultamento até que ocorresse na osseointegração, indagamos
se seria realmente necessário esse sepultamento, uma vez que nos implantes
que precederam os chamados osseointegrados - sub-periósteos, agulhas, lâminas,
bicorticais, tridimensionais, etc., essa condição não existia. De fato, esses
implantes emergiam para o meio bucal apesar da microbiota que os circundavam.
(Figura 1 ).
É verdade que muitos desses implantes foram insucessos,
porém, os fracassos podiam ser atribuídos a cargas prematuras, indicação incorreta,
falhas no planejamento ou no ato cirúrgico, prótese inadequada, etc., e não
pelo fato de se exteriorizarem na cavidade oral. Senão, como explicar o sucesso
da milhares e milhares de implantes naquelas condições que ainda continuam em
função ao longo dos anos?
Os frutos colhidos no Simpósio foram excelentes: primeiro
porque a partir de 1988 começou no Brasil a era dos implantes osseointegrados
- o up to date da implantologia oral - e segundo porque iniciei meus estudos
comparativos com implantes osseointegrados encobertos e descobertos com a finalidade
de evitar o segundo tempo cirúrgico. Na primeira fase desse trabalho, construí
um inserto vedante com furo passante de 0,8 mm de tal forma que permitisse a
passagem de uma agulha hipodérmica. Dessa maneira, perfurando a gengiva e atravessando
o inserto, podia-se determinar o centro geométrico do implante. A partir daí,
com o auxílio de um "punch" ou bisturi circular orientado por um gabarito,
era removida estritamente a área gengival que recobria o implante.
Assim, o segundo tempo cirúrgico praticamente caia a
zero porque era feita apenas a excisão da gengiva acima do inserto, permitindo
sua remoção e início dos procedimentos de prótese, sem necessidade sequer de
sutura.
Na segunda fase de pesquisas, extremamente simples,
e que se revelou promissora, logo após a instalação do(s) implante(s) ao invés
de fechá-los com inserto, colocou-se um cicatrizador que se exteriorizava apenas
1 mm acima da gengiva, impedindo seu fechamento durante o tempo necessário para
ocorrer a osseointegração. (Figuras 2 a 6)
Fig. 1 - Simpósio 1988 - Primeira visita de Branemark ao Brasil. Da esquerda para a direita: Profs. Linfhe, Branemark, Serson e Kon.
Fig. 2 - Implante 45 descoberto, remoção do inserto vedante, o implante 47 ficou descoberto desde o 1º tempo

Fig. 3 - Cicatrizador e sutura
no implante 45
Fig. 4 - Vinte e dois dias após - aspecto idêntico da mucosa no
47 (descoberto) e 45 (encoberto)
Fig. 5 - Idênticas condições de osseointegração (RX e percussão) nos implantes descobertos e encobertos
Fig. 6 - Aspecto idêntico nos tecidos moles que circundam os dois implantes
Tornava-se
cada vez mais evidente (tomando-se a precaução de não haver carga sobre o cicatrizador),
que a osseointegração ocorria da mesma forma, com a grande vantagem de não haver
segundo tempo cirúrgico. Ao contrário, decorrido o tempo de espera, quando
os pacientes já retomavam para consecução da prótese, a gengiva apresentava-se
cicatrizada e perfeitamente adaptada ao cicatrizador ou emergente para a instalação
do abutment. Assim, sem necessidade de anestesia ou bisturi, retirava-se o cicatrizador
e inseria-se o pilar para moldagem imediata.
Paralelamente a essas oclusões, apreciamos com satisfação
publicações na literatura implantológica, que apontava esse procedimento como
válido, inclusive, um sistema suíço fabricando seus implantes visando esse procedimento.
VANTAGENS DE IMPLANTE DESCOBERTO
Não existe segundo tempo cirúrgico. Não existe incisão, nem sutura, proporcionando uma economia de material e de tempo.
Do ponto de vista psicológico é eliminada a ansiedade do paciente para enfrentar novo tempo cirúrgico
Não há necessidade de tempo de espera (20 a 30 dias) para cicatrização gengival e posterior moldagem. Esta pode ser feita de imediato,
Preservação do periósteo que é também, responsável pelo suprimento da cortical óssea, uma vez que o mesmo não é incisado, nem deslocado pela segunda vez. (Figuras de 7 a 11)

Fig. 7 -
Ausência congênita dos 14, 15, 24 e 25. Corte oclusal para determinação
da espessura óssea.
Fig. 8 - Corte sagital para determinação de altura óssea
Fig. 9 - Cirurgia concluída - Sutura com exposição dos cicatrizadores nos 14, 15, 24 e 25. (implantes descobertos para evitar o 2º tempo cirúrgico
Fig. 10 - Remoção dos cicatrizadores, seis meses após gengiva adaptada e pronta para receber pilares e moldagem imediata na mesma sessão.
Fig. 11 - Idem lado direito.
AVANÇOS
FUTUROS
Idealizamos um novo método que pode ser utilizado, acreditando-se
na premissa de que os implantes para a resposta biológica de osseointegração
não necessitam estarem encobertos ou sepultos,
Pode-se, além de evitar o segundo tempo cirúrgico, simplificar
sobremaneira o primeiro tempo.
Assim, ao invés de incisão e deslocamento da fibromucosa
e periósteo, utilizar um bisturi circular do diâmetro do implante (por ex. 4
mm) acoplado ao contra-ângulo,
Comprimindo-se o bisturi contra a gengiva e acionando-se
o motor por três segundos, consegue-se excisar a gengiva e periósteo que ficam
englobados no bisturi, e consequente exposição imediata da cortical óssea.
Após esse procedimento, seguir o protocolo cirúrgico;
perfuração com a primeira broca, com a finalidade de criar o alvéolo, utilizar
as demais brocas para alargá-lo, passagem do macho, se necessário, e introdução
do implante, Fechá-lo com cicatrizador ou emergente compatível com o abutment
ou pilar que será utilizado de conformidade com o planejamento protético. (Figuras
12 a 16)

Fig. 12 -
Ausência do 14 - Mantenedor de espaço na região.
Fig. 13 - Planejamento para utilização de bisturi circular
Fig. 14 - Bisturi aplicado ao contra-ângulo para fazer uma excisão de 4 mm de diâmetro de gengiva e periósteo para expôr a cortical óssea.
Fig. 15 - Introdução do implante, após a confecção do leito cirúrgico.

Fig. 16 - Fechamento com cicatrizador (implante descoberto). Sem incisão, sem descolamento, sem sutura
DESVANTAGENS DO MÉTODO
Visualização parcial da área óssea: necessidade de avaliação da topografia e espessura óssea através de tomografia computadorizada para evitar fenestrações.
Necessidade de gengiva aderente. O sangramento é intenso em gengiva com mais de 5 mm de espessura dificultando a visualização do campo operatório.
Alto grau de adestramento em implantologia oral.
Impossibilidade de utilização de membranas ou barreiras.
No
futuro as desvantagens poderão ser eliminadas com o desenvolvimento das técnicas
de laparotomia e pontas de câmeras de vídeo intra-ósseas.
VANTAGENS DO MÉTODO
Eliminação do segundo tempo cirúrgico.
Diminuição do primeiro tempo cirúrgico.
Menor trauma.
Proteção total do periósteo. Somente a área do diâmetro do implante é excisada.
Eliminação de guia cirúrgico quando o paciente possui dentes antagônicos da área a ser implantada.
Anestesia menos extensa.
Pós-operatório incomparavelmente melhor. (Figuras 17 a 20)
Fig. 17 - Excisão com bisturi circular para instalação de 4 implantes, mais cicatrizadores. (implantes descobertos) - Procedimento rápido, cirurgia simplificada, sem agressão ao periósteo da região, sem sutura.
Fig. 18 - Quatro meses após - condição normal de osseointegração.
Fig. 19 e 20 - Sem anestesia, sem 2º tempo cirúrgico, remoção dos cicatrizadores, instalação dos pilares e moldagem na mesma sessão.
BIBLIOGRAFIA
Branemark P. I., Zard H. A. and Albrektsson, T.: Tissueintegrated Prostheses, Osseoingration in Clinical
Dentistry. Quintessence Publistring Co. Inc. Chicago, 1985
Buser D, et alii,: Soft tissue reactions to nonsubmerged unloaded titanium implants in beagle dogs. J. Periodontol. 1992; 63: 226-236
Mombelli A, et alii,: The mibrobiota associated with successful or failing osseointegrated titanium implants. Oral Mibrobio. Immunol. 1987; 2(4): 145-151
Searson D.: Implantes Orais Teoria e Prática. Edit. Artes Médicas, São Paulo, 1985
* Prof. Titular da disciplina de implantes Orais da Universidade Paulista -UNIP