Utilização de punchs para reentrada cirúrgica em
implantes osteointegrados


KALIL, Marcos da Veiga *
COSTA, Roberto Fernandes**
ROSA FILHO, Jaime José da***

RESUMO
    Neste artigo, o autor apresenta uma técnica de reentrada cirúrgica para fase protética através de punchs. Esta técnica demonstrou ser de fácil execução, proporcionando um contorno similar ao contorno cervical do implante. Possibilitando uma incisão clinicamente menos traumática quando comparadas a incisão por lâmina de bisturi.

ABSTRACT
     In this article, the author presents a technique of having reentered surgical for prosthetic phase through punchs. This
technique demonstrated to be of easy execution, providing a similar contour to the cervical contour of the it implants. Facilitating an incision less traumatic when clinically compared then bistoury sheet incision.

PALAVRAS-CHAVE
    
Implante osseointegrado, Caso clínico, reentrada cirúrgica, punch.

KEY WORDS
    
Osteointegrated Implant, Clinic case, surgical re-entered, punch.

INTRODUÇÃO
    
A reposição da estrutura dentária perdida constitui-se na maior tarefa de um dentista clínico. E a habilidade de fixar um implante na mandíbula, com o objetivo de reproduzir totalmente o dente e para servir como suporte de uma restauração unitária ou de uma prótese parcial ou completa, tem sido uma meta buscada já há longo tempo.

    Através dos anos, tem-se tornado óbvio que este campo complexo da Implantologia Dentária requer a otimização de diversas variáveis importantes, para que se consiga o sucesso. Isto incluí a seleção apropriada do material; o desenho; um conhecimento e a avaliação da interação biológica da interface entre o implante e os tecidos; uma técnica cirúrgica controlada e cuidadosa; um desempenho conjunto e integrado de várias especialidades, para otimizar a seleção do paciente; uma análise da geometria do implante e da prótese; e, finalmente, os cuidados e acompanhamento pós-implante ( 20,21).

    Inúmeros implantes com desenhos e composições foram testados, colocados e então descartados ao longo dos anos. Infelizmente para todos os sistemas de implantes, o sucesso não vinha sendo capaz de ser previsível ou garantido. Devido a inúmeras falhas com implantes e a exigüidade de estudos. Desde 1960, no entanto, significantes pesquisas básicas e clínicas em um novo e aparentemente bem sucedido sistema de implante foi desenvolvido por Branemark e colaboradores (Branemark et al. , 1977; Adell et al., 1981; Albrektsson et al., 1986) ( 1,2,3,8,9 ). Em 15 anos de estudo Adell registraram taxas de sucesso em situação totalmente desdentadas de 81% na maxila e 91 % na mandíbula e mesmo porcentagens mais altas de 89% e 100% respectivamente para próteses associadas.

   A necessidade por implantes dentários, na década de 90, tem sido documentada num estudo recente que indica que há uma porcentagem significante de pessoas edentadas nos Estados Unidos (12). De acordo com uma pesquisa de 1985 a 1986 sobre a saúde bucal em adultos, empregados e cidadãos aposentados nos Estados Unidos, conduzida pelo Instituto Nacional de Pesquisa Dental, 4% de pessoas entre 35 e 65 anos de idade e 42% daquelas com mais de 65 anos de idade são totalmente edentadas. Meskin e Brown (1988) compararam estes achados com os resultados de um estudo de 1917 (Harvey e Kelly , 1981 ) e encontraram que o total de edentados aumentou no período de 15 anos de 19,9% em 1971 para 24% em 1985 (13,16). Além disso, pessoas entre 55 e 64 anos de idade com dentes, perderam uma média de 9 a 28 dentes, e pessoas dentadas acima de 65 anos de idade perderam em média 10 a 28 dentes ( Meskin e Brown, 1988) (16). Estes resultados indicam que nas próximas décadas haverá significante número de indivíduos com dentição comprometida, para os quais os implantes podem ser indicados. Com a gradativa conscientização sobre saúde bucal de nossa sociedade e disponibilidade crescente de técnicas e marcas, os implantes vem se revelando uma boa alternativa às próteses removíveis ( 2,4).

    
Fig. 1: Fotografia de dois punchs de diâmetros diferentes.
Fig. 2:
Dois pacotes de punch esterilizados com numarações diferentes
Fig. 3: Punch em pacote descartável


  
Fig. 4A: Penetração do punch adequado ao diâmetro do implante
Fig. 4B: Esta figura mostra o contorno gengival logo após a reentrada cirúrgica realizada por punch
.



REVISÃO DE LITERATURA
    
Os princípios fundamentais para obtenção de um contato direto e estabilidade entre implante e tecido ósseo foram cuidadosamente testados em pesquisas científicas realizadas em vários centros (15). Branemark e cols. foram na verdade quem, em 1952, no Laboratório de Microscopia Vital, Departamento de Anatomia, Universidade de Lund, Suécia, iniciaram as pesquisas para obter um amplo conhecimento de como, sob condições controladas, podem os tecidos ósseos e modulares lesionados, reparar-se e regenerar-se como tal e não como tecidos cicatriciais pouco diferenciados (7).

    Estas pesquisas continuaram, a partir de 1960, no Laboratório para Biologia Experimental, Universidade de Gteborg, Suécia e desde 1978 no Instituto de Biotecnologia aplicada em Gteborg, Suécia. Também realizaram numerosos estudos sobre o desenho ideal dos componentes não biológicos para servir de ancoragem protética e os requisitos tíssulares para que a osseointegração a nível molecular possa ser obtida. Branemark e cols. (1977), descreveram os fatores preponderantes para obtenção do contato direto e estabilidade entre implante e osso maxilar, como sendo (9): A superfície do implante deve ser limpa mecânica e quimicamente para remoção de qualquer partícula estranha(21), como lascas metálicas de trabalho com ferramentas e outros contaminantes e devem ser feitos de material inerte(15,24 ). O leito ósseo receptor deve ser preparado com um mínimo de trauma cirúrgico, sendo o principal, o trauma térmico durante a perfuração e a sua dimensão deve ser congruente com a do implante o procedimento cirúrgico é realizado em dois tempos, sendo o primeiro para a colocação do imp.lante no leito ósseo e o segundo para abertura do tecido mole (reentrada cirúrgica) e exposição da parte superior do implante que receberá as peças sobre os quais serão confeccionadas a prótese (18, 19). O tempo entre o primeiro e segundo procedimentos é de no mínimo 3 meses e esta fase deve transcorrer sem distúrbios para o tecido ósseo marginal ao redor do implante que deverá sofrer sucessiva remodelação durante o tempo de espera, com formação de um osso e remineralização que prossegue também quando as forças mastigatórias forem aplicadas ao implante (22,23).

   Aparício e Olive (1985) descrevem em 6 estágios que devem ser considerados para obtenção e manutenção da osseointegração, sendo eles (6):

  1. Os elementos de ancoragem serão de material biocompatível e possuirão uma forma geométrica e dimensões tais que se possa fixá-los a um sistema mecânico adequado.

  2. A superfície dos implantes terá uma microarquitetura adequada, não estará contaminada e se estabelecerá imediatamente uma íntima superfície de contato com o osso circundante durante a instalação.

  3. Os leitos ósseos serão preparados e os implantes instalados de tal maneira, que será mantida a capacidade do tecido de reparação.

  4. As forças oclusais, transmitidas pela prótese, serão distribuídas uniformemente e controladas em sua magnitude, de maneira que não exceda o ponto de ruptura, tanto do tecido de ancoragem como dos componentes mecânicos.

  5. O tecido mucoso que rodeia os pilares perfurantes se manterá em estado de saúde por meio de uma higiene local adequada.

  6. A interpretação radiográfica se efetuará com uma resolução linear e uma definição tal que permitirá determinar o caráter da zona de interface, assim como detectar precocemente as possíveis complicações biológicas ou mecânicas.

     Os implantes dentais têm sido utilizados clinicamente por mais de 30 anos, confeccionados com uma variedade de materiais e diferentes desenhos, mas o sucesso clínico obtido com os implantes de titânio osseointegrados é baseado em método meticuloso de acompanhamento científico completo com fatores básicos relevantes a um implante dentário funcional. As reações interfaciais osso-metal não são determinadas somente por fatores relacionados ao implante. Mas também a técnica cirúrgica e as condições que são colocados em função, estabelecendo assim uma osseointegração confiável como relatado por Albrektsson e Jacobson (1987)(4).

    Albrekisson e cols. (1987) propõem 6 equações que inter-relacionadas são capitais para assegurar o êxito a qualquer procedimento de implante (3).

  1. Biocompatibilidade do material de implante.
  2. Natureza macroscópica e microscópica da superfície do implante.
  3. O estado do leito do implante em um contexto curado (não infectado) e morfológico (qualidade óssea).
  4. A técnica cirúrgica por si.
  5. A fase de cura ou osseointegração sem perturbações.
  6. O desenho protético conseguinte e uma fase de carga a longo prazo. Isto reúne as considerações de desenho e materiais empregados, localização dos implantes, carga antecipada, junto com considerações higiênicas e cosméticas.


     Carlsson e cols. (1988) citam que têm verificado uma estabilidade de longa duração em implantes de metal fixados por aposição óssea direta, mas a integração de materiais estranhos no osso, sem o subsequente desenvolvimento de uma camada de tecido fibroso interfacial, não é totalmente dependente do uso de um material de implante biocompatível com o titânio (10).

   Fatores como uma cuidadosa técnica cirúrgica, um leito ósseo saudável (35,36), controle das forças oclusais, adequada configuração do implante para permitir um bom ajuste no osso receptor e ainda um conveniente acabamento da superfície do implante são também importantes para se obter o contato direto osso/metal.

   Lindiquist e cols. ( 1988) relataram que a pobre higiene oral e a grande força de cerramento dos dentes influenciam significativamente a perda óssea ao redor dos implantes osseointegrados no decorrer dos anos em comparação com os pacientes com higiene oral adequada e sem hábito de cerramento dos dentes(14).

    Ismail e Zati ( 1990), também descreveram como princípios para a osseointegração, a biocompatibilidade dos materiais de implante, uma técnica cirúrgica asséptica e não traumática, um período inicial de cicatrização sem carga e procedimentos protéticos de redução de esforços ideais ( 13).

    O titânio comercialmente puro (Ti O2) tornou-se um dos materiais de escolha, devido a uma previsível interação com o meio biológico. Ele se oxida (passiva) em contato com o ar ou com os fluidos tíssulares normais. Esta reatividade é favorável para os dispositivos implantados, pois minimiza a biocorrosão. Uma fina película de óxidos será formada em uma superfície cortada em milésimos de segundos. Por este motivo, qualquer ranhura ou corte na camada oxidada será essencialmente auto-reparada. Por outro lado, sua baixa densidade, de aproximadamente 4,5g/cm2, faz com que exista uma alta relação entre a resistência e o peso de alumínio e 4%5555 em peso de vanádio (17,20).

    O titânio tem um módulo de elasticidade de aproximadamente a metade das ligas de aço inoxidável e de cobalto-cromo. Entretanto, ela é ainda 5 a 10 vezes maior do que aquela do osso. Apesar disto, o desenho do implante é importante, para que haja uma distribuição apropriada das tensões transferidas.

PUNCH OU PERFURADOR
     
O punch ou saca-bocado cutâneo, é um cilindro de metal de diâmetro variável utilizado para biópsia em pequenas áreas. É composto de uma parte ativa circular cortante extremamente afiada com cabo de plástico (Fig.1 ). O punch é pressionado perpendicularmente sobre a área desejada, com um movimento de penetração e torção até chegar ao implante, e então removido. O conteúdo apreendido de tecido é removido e então retirado do tecido subjacente.

    Segundo CASTRO, A.L., a Biopsia é o exame dos tecidos removidos de um indivíduo vivo, podendo, o termo, ser utilizado tanto para designar o ato da remoção da peça, quanto para designar o exame macro e microscópico dessa peça. Etmologicamente, deriva do grego bios(vida) e opsis(aparência, visão) e contrapõe-se à necropsia que significa o exame de tecidos de cadaver(11).

   Abiopsia está indicada para:

   E depois de colhido, o material é enviado para biópsia. A ferida pode permanecer e cicatrizar sem sutura por segunda intensão, ou as espensas de uma cauterização por electro-coagulação ou ainda por algum outro agente hemostático. Muitos cirurgiões preferem inserir uma ou duas suturas para afiançar hemostasia.

   No nosso caso, segundo WATSON R.M., os perfuradores para biópsias são convenientes nesta etapa, tendo como características o seu fácil manejo e pratica e rápida utilização, sendo encontrado com diâmetros variados de 02 à 06 milímetros de diâmetro ( Fig.2). Devendo ser selecionado um punch de diâmetro compatível a cabeça do implante(24).

    São encontrados esterelizados em embalagens individuais descartáveis pois perdem facilmente o fio, embora possam em muitos casos serem reaproveitados após reesterelização em autoclave ( Fig. 3).

    Um corte em seu cabo de plástico, possibilita uma maior firmeza de penetração e remoção do capuz gengivaI. No caso de dificuldade na retirada deste capuz gengival, um ligeiro movimento oblícuo em posição, promoverá a remoção do corpo gengival de maneira a deixar hígida a gengiva marginal ou perimplantar (Fig.4).

DISCUSSÃO
    
Toda cirurgia rompe as relações existentes entre as várias células e os tecidos do organismo. A cicatrização é a fase da resposta inflamatória cujo resultado é o restabelecimento dos elementos rompidos, formando-se novas relações fisiológicas e anatõmicas.

    A compreensão dos processos de cicatrização permite planejar e executar os procedimentos cirúrgicos apropriados a implementar todos os objetivos terapêuticos e a garantir que o período de convalescença seja o mais breve e confortável. Alguns sistemas de implantes fornecem abutments cicatrizadores que são levemente maiores que o abutment definitivo para serem colocados após a cirurgia de reentrada. Isto facilita a cicatrização, permitindo ao operador após aproximadamente três semanas de cicatrização um contorno gengival com medidas definidas para o abutment definitivo. Fornecendo uma estrutura parcialmente epitelizada e estável. Com a introdução no mercado Odontológico de sofisticados sistemas de implantes com práticas concepções cirúrgicas e protéticas. Cada vez mais, os implantes osseointegrados raramente falharão em seu primeiro ano de exposição clínica (Alberktson et al., 1988 ). No entanto neste caso a observação supera em seis vezes este período (5).

    Resultados clínicos preliminares, indicam que a utilização adequada de punch durante esta etapa de exposição da cabeça do implante, resultaram numa incisão mais precisa que a realizada por retalho localizado por lâmina de bisturi. Sendo assim, tais resultados clínicos nos tornam otimistas quanto a utilização deste instrumento.

CONCLUSÃO

  1. O punch é uma boa opção para procedermos cirúrgicamente a reentrada cirúrgica após o período de osteointegração.

  2. As partes cortantes do punch, de diferentes diâmetros, tornam compatíveis estes instrumentos às numerações dos diferentes sistemas de implantes conhecidos.

  3. Quando se domina esta técnica, a remoção gengival se dá de forma mais prática e simples.

  4. Os resultados clínicos nos tornam otimistas quanto a utilização deste instrumento para reentrada cirúrgica.


BIBLIOGRAFIA

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*Professor Auxiliar da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal Fluminense.
**Professor Assist. Radiologia da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal Fluminense.
***Professor Titular Radiologia da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal Fluminense.