Sistema Ankylos
Experiência clínica com uma nova
concepção em Implantes Osseointegrados

Carlos dos Reis Pereira de Araujo*
Maria Angélica Rehder de Araujo* *
Vilson Marques de Oliveira* * *
Paulo César Rodrigues Conti*
Stefania Carvalho Kano****


Resumo:
Os autores descrevem as características do instrumental e componentes desenvolvidos para as técnicas cirúrgicas e protéticas com o sistema Ankylos relatam as impressões após um ano de experiência clínica com a nova modalidade de implantes.

Abstract:
The authors describe the leasie fractures of the instruments and prosthetic devices set developed to be used with the Ankylos Sistem and report their impressions after a year of clinical experience with this new modality of osseointegrated implants.

Palavras Chave:
Implantes osseointegrados, componentes cirúrgicos, componentes protéticos.

Key words:
Osseointegrated implants, surgical components prosthetic components.

Introdução:
       Desde que Branemark introduziu a versão atual dos implantes osseointegrados a partir de 1965, os resultados tem sido progressivamente melhores considerando o seguimentos dos casos clínicos reabilitados com implantes.

        O nível de segurança obtido com os implantes é considerado atualmente maior do que qualquer outra técnica de restauração utilizada em odontologia. No entanto, ao longo dessas três décadas de utilização dos implantes paralelamente ao grande sucesso obtido uma série de pequenos problemas tem-se manifestado no acompanhamento das próteses sobre implantes.

Os Principais inconvenientes são:

  1. Reabsorção óssea marginal progressiva especialmente no primeiro ano após a instalação das próteses.

  2. Periimplantite.
  3. Afrouxamento dos parafusos que conectam os intermediários transmucosos aos implantes com a consequente soltura dos mesmos e, afrouxamento dos parafusos que conectam as próteses a esses intermediários.
  4. Fratura dos parafusos de ouro ou de titânio que conectam as próteses aos intermediários.
  5. Fratura dos parafusos que conectam os intermediários aos implantes.
  6. Presença de uma microfresta ou "microgap" na região de conexão dos intermediários com o implante, que se situa exatamente no nível do tecido ósseo provocando a presença de um infiltrado inflamatório constante, que eventualmente pode ser o responsável em parte pela reabsorção óssea tipicamente presente nos implantes do tipo Branemark 2 ou implantes que apresentem a conexão do intermediário
     através do sistema conhecido com hexágono externo.

          A partir de 1987, MOSER; NENTWIG 3, passaram a desenvolver estudos de elemento finito na tentativa de criar um projeto de espiras para as superfícies externas dos implantes que permitisse uma distribuição dos esforços em relação ao osso de modo a evitar uma concentração de forças na região cervical ou na emergência óssea do implante. Segundo esses autores demonstraram através de estudos fotoelásticos, os implantes convencionais apresentam uma concentração de forças 4 na região mais cervical.

               A criação de um novo desenho externo para as espiras dos implantes utilizando um sistema de roscas progressivamente maiores a medida que se caminha para a apical no implante propiciou uma distribuição dos esforços que consegue transferir a maior parte da carga aplicada para a região apical fazendo com que o osso medular normalmente presente nessa área absorva a maior parte do impacto.

               Os trabalhos teóricos originais de Nentwig e Mozer, foram confirmados mais tarde em estudos clínicos desenvolvidos nas universidades de Munique e Frankfurt.

                 O implante original de Nentwig e Mozer conhecido como "NM" 5 foi alguns anos depois patenteado e passou a ser industrialmente fabricado recebendo o nome comercial de Ankylos.(Degussa AG, Hanau, Alemanha)

            Para tentar diminuir, além do problema de reabsorção óssea marginal os outros problemas comumente encontrados nos implantes osseointegrados, pesquisadores do Sistema Ankylos criaram uma conexão cônica entre o implante e o intermediário, baseado no princípio de "cone morsa" (Figura 1). De acordo com esse princípio a conexão cônica serve para vedar completamente e selar contra as bactérias o espaço interior do implante. Os intermediários são firmemente presos às roscas dentro do implante através da extremidade rosqueada no caso dos intermediários convencionais e através de um parafuso central no caso dos intermediários pré-angulados (Figura 2). O travamento de ambos os componentes de precisão propicia uma conexão anti-rotacional e completamente asséptica não permitindo o fluxo ou tráfego de bactérias de dentro para fora ou de fora para dentro do implante. Além disso, o curioso desenho da região de conexão entre o intermediário e o implante visivelmente mais estreito do que o diâmetro principal do implante propicia segundo os autores um selamento epitelial e uma espessura máxima de tecido que cria uma área mais volumosa de gengiva marginal além de propiciar uma menor transmissão de luz, impossibilitando a visualização anti-estética dos componentes metálicos por transparência através da gengiva (Figura 3). A forma estreita da conexão também faz com que a superfície coronária do implante aja como barreira à migração apical do epitélio juncional.. Além disso, os pesquisadores sugeriram também uma textura superficial rugosa que, de acordo com as pesquisas mais recentes, apresenta um potencial de maior e mais rápida reação de osseointegração na fase de cicatrização entre a cirurgia de instalação e a reabertura do implante para a conexão do intermediário 6. Os Implantes Ankylos, assim como os seus componentes protéticos são fabricados de titânio comercialmente puro e são apresentados em uma embalagem dupla de vidro estéril interessante e conveniente (Figura 4).

       Estudos clínicos realizados nas Universidades de Frankfurt e na policlínica da Universidade de Munique a partir de 1987, considerando um número superior a 1.000 implantes tem mostrado que a taxa de sobrevivência desses implantes é maior do que 96%. De acordo com estudo de Cappelyn e Maya., as taxas de sobrevivência na maxila para este implante são idênticas às da mandíbula, o que contraria os achados anteriores com todos os outros tipos de implantes 8. Além disso, estudos de aproximadamente 8 anos de duração apresentam resultados bastantes promissores de sobrevivência de próteses que combinam Implantes Anklyos com dentes naturais 9.

       A justificativa apresentada pelos pesquisadores e de que as roscas progressivas do implante Ankylos concentram a força no osso medular que possui características bem mais elásticas do que o osso cortical e criam uma condição de "micro-mobilidade" fisiológica mais parecido com a dos dentes naturais, o que permitiria maior compatibilidade entre implante e dentes naturais. Confirmando esses achados, a avaliação do "Perio-Test" para os implantes Ankylos apresenta resultados diferentes dos implantes tradicionais.

        Em um estudo NENTWIG; MOZERT, em 1991, os valores médios medidos clinicamente do "Perio-Test" para os implantes Ankylos foi de -0,9, enquanto a média dos dentes naturais foi de + 7,2. O valor de "Perio- Test" usualmente encontrado em implantes convencionais é de aproximadamente -8 a -11 o que mostra uma característica completamente diferente desses sistemas de implantes em relação ao sistema Ankylos 10.

        Em função das características interessantes e promissoras desse novo sistema uma série de casos clínicos foi realizada de junho de 1997 a julho de 1998 para avaliar seu comportamento clínico, em pacientes da cidade de Bauru. O caso a ser descrito neste artigo a título de exemplo foi uma reabilitação parcial na região posterior de mandíbula com três implantes Anklyos dos tipos A e B, com comprimentos de 11 a 14mm e as características encontradas durante a experiência clínica serão aqui descritas.

Descrição do Caso Clínico:

Parte: Procedimento Cirúrgico:
       
O procedimento cirúrgico dos implantes Anklyos é realizado de forma semelhante aos dos outros sistemas, porém com algumas pequenas diferenças. Após a abertura do retalho e exposição do tecido ósseo uma depressão na superfície cortical é realizada para determinar a posição do implante com uma broca esférica de alto corte com um diâmetro de 4mm a uma rotação de aproximadamente 800rpm (Figura 5). Em seguida, uma broca de perfuração do tipo fresa de Lindeman (Figura 6) também sob intensa irrigação cria a primeira perfuração utilizando o contra-ângulo com a redução para obter uma rotação final de aproximadamente 800 rpm. Ainda, utilizando o motor uma terceira broca agora com o calibre análogo ao do implante de lâminas paralelas alarga a perfuração (Figura 7) .Essa broca deverá ser usada sequencialmente :A broca A para os implantes A, codificados na cor vermelha com 3,5mm de diâmetro e seguida pela broca B que cria o leito para os implantes B, codificados em amarelo e que tem o diâmetro de 4,5mm e por último a broca C para os implantes de calibre C de 5,5mm, codificados pela cor azul (Figura 8). Após a perfuração, então, com essa sequência de brocas seguem-se os passos realizados de forma exclusivamente manual, o que significa um procedimento diferente do usual em outros sistemas de implantes, porém que se mostrou extremamente fácil e delicado ao osso. Com o auxílio de uma catraca especialmente desenvolvida pelo fabricante que possui a interessante característica de através de um dispositivo na sua região posterior ter a sua rotação invertida para o sentido horário e anti-horário, conforme se deseja (Figura 9). Inicialmente com a catraca utiliza-se um alargador cônico este é posicionado no orifício e a ponta do alargador serve como utensílio guia. O orifício é então alargado e é obtida a conexidade de acordo com o calibre dos implantes. Esses alargadores cônicos estão disponíveis em diferentes calibres e comprimentos de acordo com os implantes (Figura 10).


        O próximo passo consiste da confecção das roscas também utilizando-se a catraca manual e o macho fazedor de rosca no calibre e comprimentos compatíveis com os implantes (Figura 11) e finalmente os implantes são adequadamente montados em uma base bloco de titânio. Através de dispositivos de montagem especialmente produzidos são acoplados à catraca e inseridos suavemente através da rotação manual da catraca até que estejam a nível ósseo ou ligeiramente a nível infra-ósseo, conforme a espessura do tecido. O retalho é suturado aguarde-se um período idêntico tanto para mandíbula quanto para maxila para que se realize a reabertura dos implantes.

       Um aspecto diferente e prático do Sistema é que o parafuso de cobertura que normalmente deverá ser colocado no implante para proteger o orifício da rosca imediatamente após a sua inserção, no caso do Ankylos já vem incorporado. Assim, imediatamente após o rosqueamento do implante passa-se à sutura sem a necessidade de se colocar um parafuso de cobertura. O parafuso de selamento é parte integrante do implante (Figura 12).

2ª Parte: Cirurgia:
       
A segunda cirurgia realizado após 3 a 4 meses segue basicamente o protocolo conhecido pelo sistemas de implantes osseointegrados usuais. O implante pode ser exposto através de um retalho completo ou pode ser localizado através de um dispositivo punti-forme e uma pequena abertura pode ser utilizada para a localização do implante e o imediato rosqueamento do parafuso formador de sulco ou cicatrizador. Até esse momento o parafuso de proteção da rosca do implante nunca foi removido e a rosca do implante permanece completamente sem contato com o meio externo (Figura 13). Após o período de cicatrização que pode variar de 10 a 30 dias, remove-se o parafuso formador de sulco. É feita a seleção do intermediário e para sua inserção remove-se o parafuso de selamento do implante. O implante agora está aberto pela primeira vez e as condições de assépsia foram assim preservadas até esses momento. Após a seleção do intermediário o mesmo é rosqueado no interior do implante e dependendo do componente selecionado um dispositivo especial de torque parafusa-o com 10, 15 ou 25 newtons. O caso agora está pronto para confecção de provisórias e moldagem definitiva (Figura 14).

Fase Protética:
       
Casquetes de moldagem especialmente fabricados em alumínio são posicionados sobre os intermediários.
Esses casquetes estão disponíveis nas diferentes dimensões e características desses intermediários e são removidos em posição através de moldagem convencional com materiais elastoméricos (Figura 15).

        Os intermediários do tipo standard estão disponíveis em diâmetros de 3,3 ou 4,5 mm em alturas de 4 e 6 mm e com distância de margem a cabeça do implante, ou seja, distância correspondente à espessura da mucosa de revestimento variando de 1,5 a 3,0mm. São várias combinações que possibilitam uma grande gama de resoluções protéticas. Além disso, todas as versões estão disponíveis em angulações de 15º que podem ser usadas para compensar pequenas divergências provocadas por alterações cirúrgicas na colocação dos implantes.

        Após a moldagem dispositivos especiais que reproduzem os intermediários são posicionados no interior dos casquetes de moldagem para realização do modelo de trabalho (Figuras 16 e 17). Esses dispositivos ou réplicas são compostos de 2 partes uma das quais se aloja precisamente no interior da outra. Esses mecanismo permite a confecção de um modelo no qual a réplica do intermediário pode ser facilmente removida e precisamente retornada a sua posição original o que permite uma grande versatilidade nos procedimentos de laboratório assemelhando-se basicamente aos procedimentos de rotina utilizados na prótese convencional.

       Existe a opção de confecção de modelos para próteses realizadas exclusivamente sobre implantes e uma pequena variação de componentes que permite a realização de modelos para confecção de próteses conjugadas entre dentes e implantes. As réplicas dos intermediários são apresentadas na versão reta e na versão angulada de 15º. Também estão disponíveis no Sistema para os intermediários convencionais casquetes de plástico para a confecção de provisórios (Figura 18 e 19) nos diferentes tamanhos em que os intermediários apresentam, além de casquetes de plásticos com a perfuração lateral e rosca para a fundição das próteses definitivas nas opções de prótese parafusada por oclusal, prótese parafusa por lingual ("Sistema Tube and Screw") e prótese cimentada. Além dos intermediários do tipo standard o sistema apresenta um revolucionário intermediário estético denominado pelo fabricante de "Balance" (Figura 20) apresenta intermediários magnéticos e de barra clip para próteses do tipo "overdentures" e apresenta o intermediário direto ao implante para os casos de mínima espessura de tecido denominado como "dermador".

Finalização:
        Neste caso preferiu-se a realização de três coroas metalocerâmicas cimentadas (Figura 21), visto que uma das grandes vantagens do sistema e a assepsia da conexão subgengival, não se justificando o uso de soluções parafusadas, o que minimiza a necessidade de manutenção. Na (Figura 22) uma visão do caso concluído.

   

Figura 1: O "abutment" conecta-se ao implante através do Sistema "Cone-morsa" o que propícia resistência e vedamento.
Figura
2: Os parafusos de cicatrização, assim como, os intermediários são apresentados em diversas formas e comprimentos, possibilitando as mais diferentes alternativas protéticas tanto em próteses fixas quanto em "overdentures"
Figura 3: O maior diâmetro do implante em relação ao intermediário na região da conexão cria uma barreira metálica no fundo , do sulco gengival além de propiciar um aumento de volume de tecido conjuntivo na região cervical.
Figura
4: Aspecto da embalagem asséptica de apresentação dos Implantes Ankylos

   

Figura 5: Broca esférica com diâmetro de 4mm na fase inicial da preparação do leito para os implantes.
Figura
6: Guia cirúrgico em posição e a fresa de Lindeman iniciando a preparação.
Figura
7: Pinos de paralelismo nos orifícios posteriores e a broca de lâminas paralelas realizando a perfuração codificadas por cor de acordo com implante no caso o do tipo "A ".
Figura 7a: Broca de lâminas paralela codificada por cor no caso o implante" B " com 4,5mm de diâmetro.
Figura
8: A sequência l6gica de brocas o alargador cônica fazedor de rosca levam a colocação segura e estável do implante.

   

Figura 9: Catraca reversível e dispositivos para posicionamento das etapas a partir do alargador cônico até a colocação do implante que são todas realizadas manualmente.
Figura
10: Macho fazedor de rosca em posição preso a catraca
Figura
11: O dispositivo circular posiciona inicialmente o implante que depois pode ser apertado com auxilio da catraca.
Figura
12: Vista dos três implantes já instalado observando-se os parafusos de selamento que não necessitam ser colocados pois fazem parte integrantes do implante.

   

Figura 13: 3 meses depois. Aspecto da área 1 semana após a cirurgia de reabertura, vendo-se os parafusos formadores de sulcos.
Figura
14: Os intermediários standard já selecionados foram colocados emposição e parafusos com torque de 25 newtons.
Figura
15: Visão da moldagem com os casquetes de alumínio descartáveis de transferência em posição.
Figura
16: As réplicas acopladas as luvas de precisão em aço inox são posicionadas no molde para o vazamento do modelo. Após o vazamento as réplicas poderão ser removidas do modelo e as luvas permanecerão no gesso.

   

Figura 17: Visão do modelo pronto com gengiva artificial.
Figura
18: Aspecto da provisória confeccionada sob o modelo.
Figura
19: Provisória e posição na broca através da qual pode-se realizar o condicionamento do tecido gengival.
Figura
20: Os intermediários estéticos do tipo "balance" simulam um preparo sob o ponto de vista anatômico apresentado um contorno que acompanha a linha marginal gengival e um degrau convenientemente pré-esculpido com espessura compatível com as modernas técnicas para metalocerâmica e cerâmica pura.

 

Figura 21: Aspecto da prótese definitiva em metalocerâmica sobre o modelo.
Figura
22: Visão clínica do caso terminado com as próteses cimentadas sob os intermediários.

Conclusão:
       Um novo Sistema de Implantes é apresentado oferecendo vantagens interessantes com relação aos sistemas normalmente utilizados no mercado. As opções protéticas são bastante amplas e os procedimentos cirúrgicos simples e fáceis de serem executados.

       O Sistema apresenta características revolucionárias sob o ponto de vista de projeto que tem sido estudadas clinicamente e comprovadas nos últímos 10 anos por diferentes estudos.

       Os autores relatam a experiência clínica dos primeiros casos como bastante promissora e com um potencial de resolução das diferentes situações normalmente encontradas em indicações formais de implante.


Referênicas Bibliográficas:

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* Professores Doutores do Depto de Prótese da FOB/USP
** CD, Especialista em Implantes pela PUC - Campinas
*** CD, Especialista em Implantes pela PUC - Campinas e Especialista em Per
riodontia pela FOB/USP
**** CD, Mestre em Reabilitação Oral pela FOB/USP