Osseointegração enfoque opinativo
Newton
Macha *
David Serson*
Artigo publicado na Revista Universidade de Guarulhos -Ciências Biollígicas
e da Saúde. Ano II- nº 5- 1997.
RESUMO
Os autores detalham as reações teciduais na osseointegração.
Baseados nas reações biológicas locais, propõem a substituição dos termos
osseointegração e anquilose.
Sugerem outra nomenclatura.
Estenose alveolar pseudo-ligamentar induzida.
Para simplificação, aceitam estenose alveolar com
satisfatório e mais explicativo.
ABASTRACT
The authors give full detailment of tissue reactions during osseointegration.
Based on the local biological reactions they purpose the
substitution of the term osseointegration and ankylose.
They suggest another nomenclature: lnduced Pseudoligamentar
alveolus stenosis.
To simplify, they will accept just Alveolar Stenosis
as being satisfactory and more explanatory .
PALAVRAS-CHAVE
Osseointegração, Anquilose, Estenose Alveolar .
KEY WORDS
Osseointegration, Ankylose, Alveolar Stenosis.
INTRODUÇÃO
Os implantes dentais firmaram sua conceituação nos últimos
50 anos com a técnica do agulhamento. Esta consistia na colocação de agulhas
metálicas intraósseas divergentes entre si, que substituíam as raízes dos dentes
perdidos.
Paralelamente a estes, desenvolveu-se o uso de lâminas metálicas
fenestradas com a mesma função. Estas abrangiam áreas mais extensas, porém necessitavam
de um ato cirúrgico mais elaborado.
Com a evolução das técnicas e dos materiais, passou-se a utilizar
titânio como metal de escolha em virtude da boa tolerância ao mesmo, pelos tecidos
bucais.
Atualmente, os implantes dentais, consistem de um parafuso
de titânio colocado cirurgicamente entre as corticais ósseas.
A fase adaptativa do organismo a esse corpo estranho, demora
alguns meses e depende de reações teciduais harmônicas, sincronizadas e sequênciais.
Ao término
destas, temos então o que denominamos de osseointegração.
REVISÃO DA LITERATURA
O termo osseointegração foi introduzido pela escola de Branemark
(Suécia) e tem consagração pelo uso, sendo utilizado pela grande maioria dos
implantologistas.
Os estudos experimentais de Albrektsson & Jacobson
( 1987), demonstraram através da microscopia eletrônica, a produção de uma fina
película (200 a 300 Å) de proteoglicana na interface osso-titânio. A mesma
fica aderida à face de titânio e interposta entre o parafuso inicialmente desnudado
e o osso alveolar. Na porção mais externa do filme de proteoglicana, próxima
ao osso alveolar, dispõem-se aleatoriamente fibrilas colágenas.
As proteoglicanas são proteínas adesivas que permitem
uma colagem do tecido ósseo ao parafuso de titânio. As fibrilas colágenas
funcionariam como um reforço de ancoragem à semelhança do ferro utilizado na
concretagem. Essa analogia é reforçada pelo fato da presença de cálcio nessa
estrutura.
Schroeder et al. (1994) propõem um modelo semelhante
ao de Branemark, tendo como variante, a disposição preferentemente paralela
das fibrilas colágenas ao eixo maior do parafuso do tltânio.
Sugerem em substituição ao termo osseointegração o uso
de anquilose como mais apropriado.
PROPOSIÇÃO
Ambos os termos (osseointegração e anquilose) sofrem
restrições. Propiciam uma facilidade de entendimento e de comunicação. Nenhum
dos dois expressa de forma satisfatória o conteúdo biológico das reações teciduais.
Pretendemos discorrer sobre essa interface comparando-a
com as diferenças existentes entre ela e os dentes naturalmente implantados,
discutindo o aspecto terminológico.
A idéia básica é a de fornecer subsídios, senão para
uma nova nomenclatura, ao menos para uma melhor compreensão dos eventos que
ocorrem à nível microscópico.
DISCUSSÃO
Até o presente momento, os estudos realizados
na interface ósseo-titânio tem uma representatividade limitada. As amostras
obtidas contém uma parte ínfima da superfície total a ser discutida. As dificuldades
de preservação (cortes de osso conjuntamente com o metal), a escassez de material
pelas perdas apreciáveis de processamento, circunscrevem a análise satisfatória
da superfície em questão.
A proteoglicana encontrada pelos autores
citados é um termo explicativo de um grupo de moléculas bioquimicamente extenso.
Significa um grupo diversificado de proteínas glicolisadas cujas funções são
mediadas por ambas: proteínas e as cadeias de glicosaminoglicanas. Elas, as
proteoglicanas, possuem um peso molecular extremamente variado e pertencem a
um território sinonímico relacionado entre si.
O denominador comum às mesmas parece ser
a adesividade, a qual de momento nos satisfaz, até que imunocitoquímica nos
forneça uma resposta mais específica.
Osseointegração implica numa interação de
respostas biológica entre o tecido ósseo e o parafuso de titânio (reciprocidade).
Isso não ocorre.
Anquilose por definição é uma fusão que
se processa entre duas articulações. Esta existe em processos patológicos sem
a interposição de qualquer substância.
Os dentes naturais estão situados em lojas
(alvéolos) e ancorados por um ligamento (ligamento alvéolo-dental). Este último
é constituído por fibras colágenas bem orientados ( oblíquos,
da crista, periapicais) que se estendem dos mesmos ao osso alveolar.
O metabolismo das fibras de colágeno do
ligamento alvéolo-dental, apresenta um "turn over" muito peculiar:
diferente das fibras de colágeno dos tendões (extremamente lento) e do resto
do organismo. Elas são renovadas e reinseridas constantemente tanto do lado
ósseo como do cimento acelular com maior frequência e velocidade
Carneiro & Moraes (1965).
Isso é o que possibilita tanto a erupção
contínua dos dentes compensada pelo desgaste oclusal, bem como a movimentação
ortodôntica dos dentes.
Nesse mesmo ligamento, Fullmer et al. (1974)
demonstraram a presença de fibras oxitalânicas (precursoras das
fibras elásticas) sintetizadas localmente.
Temos então, duas variedades de fibras do ligamento
alvéolo-dental-colágena e elástica.
No ligamento alvéolo-dental, cujas fibras funcionam
como um coxim, temos vascularização, terminações de fibras nervosas e proprioceptores.
Estes últimos são corpúsculos nervosos especializados que nos conscientizam
da presença dos dentes e delimitam o uso da força mastigatória.
Nos implantes dentais não está presente nenhuma
das estruturas relatadas nos dentes naturais. Não há ligamento alvéolo-dental,
vascularização na interface, terminações nervosas e proprioceptores.
O único denominador comum nos implantes ósseo-integrados
com os dentes naturais é a presença de alvéolo dental que é artificial, construído
pelo ato cirúrgico.
Temos então, um alvéolo cirúrgico inicial,
que posteriormente estará isolado do parafuso de titânio pelas fibrilas colágenas.
Estas dispersas sem orientação definida, numa disposição aleatória e imersas
na proteoglicana. Podemos chamar a essa arquitetura de pseudo-ligamento.
Nessa área não encontramos também osteoblastos,
osteoclastos e nem osteóide. Na ausência de um periósteo ativado para que se
realize uma ossificação do tipo membranosa, a única via alternativa que se conhece
é a ossificação endocondral.
"Shunt" metabólico. E onde estaria
a matriz cartilagínea para orientar a deposição óssea? Está representada
pelo parafuso de titânio biocompatível.
Como nos sepultamentos patológicos, como na deposição
de cimento acelular quando da degeneração e morte da bainha de Hertwig, o osteoblasto
à semelhança de cementoblastos, encontra um substrato ideal para depositar a
cola (proteoglicana) com cálcio e fosfato endógeno para a ancoragem das fibrilas
de colágeno.
Nesse mecanismo, cumpre salientar que os osteoblastos
ao se disporem em palissada, unidos entre si por "tight junctions",
formariam uma muralha (emparedamento) que delimita o processo.
A secreção celular da proteoglicana ao redor de todo
o meio circundante ao parafuso de titânio, cria um isolamento do mesmo. Teríamos
assim um parafuso com uma casca fina (córtex) de proteoglicana onde o mesmo,
internamente, constituiria o miolo (córtex).
A natureza sempre se utiliza dos mesmos materiais biológicos
e com economia, edifica a arquitetura óssea de forma mais conveniente e resistente
(linhas modelantes).
O que ocorre é estreitamento de espaço entre o osso
e o parafuso de titânio. O espaço é microscópico, mas não há
fusão. Há sim, interdigitação, imbricamente e colagem; O osso
fíca intermesclado e aderido entre as espiras, proteoglicanas e fibrilas. Esse
estreitamento (estenose) é biológico assim com a pulmonar, pilórica, tricúspidica,
etc.
Estenose: significa o estreitamento
condicionado biologicamente de ducto ou canal. Temos ínicialmente um alvéolo
artíficial. Interiormente ao mesmo; o parafuso de ímplante. Entre os doís, canais
ínícíaís de espaços nas espíras e necrose de superfícíe no alvéolo, causada
pela compressão e ato cirúrgíco. Tudo isso se estreíta posteríormente pela cícatrízação:
estenose alveolar.
Aos discorrermos sobre as proteoglicanas e a orientação
e presença de fibrilas colágenas, sugerimos a existência de um pseudoligamento
alveolar (ausência e orientação de fibras de Sharpey).
As reações teciduais adaptativas não são condicionadas
por outros metais a não ser pelo títânio (indução).
Acreditamos que a proteoglicana tenha um caráter sulfatado,
pois estas últimas apresentam um poder de adesívidade muíto grande.
CONCLUSÃO
Todos os fatores assinalados nos levam a uma estenose
alveolar pseudo-ligamentar induzida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALBREKTSSON, T. & JACOBSON, M. 1987. Bone Metal Interface in Osseo Integration. Prosth Dentistry, 57:597-607.
CARNEIRO,J. & FAVA DE MORAES,F.1965. Radíoautographic Vísualizations of Collagen Metabolism in the Periodontal Tissue of the Mouse. Archives o/ Oral Biology, 10:833-848.
FULLMER, H. M.; SHEETZ, J. H.; NARKATES, A. J. 1974. Oxytalan Connective Tissue Fibres: a Review Journal of Oral Pathology, 3,291-316.
SCHROEDER, A.; OUTTER, F.; KREKELER, O. 1994. lmplantologia Dental. Med. Panamericana, 377p.
* Centro de Implantes da Universidade de Guarulhos - CIUnG