Cirurgia de Implantação
em Região Posterior de Mandíbula
Claudio Furtado Botelho, C.D.
Resumo
O presente trabalho tem como objetivo principal relatar
um caso clínico operado em 1996 na sede do Instituto Brasileiro de Implantodontia
-IBI desde a fase de planejamento até a confecção da prótese definitiva,
discutindo as limitações cirúrgicas desta área específica.
Abstract
The present work has a main objective to tell a case operated
in the headquarters of the Brazilian Institute of Implantology
in the year of 1996, from the planning phase to the making of the definitive
prosthesis, discussing the surgical limitations of this specific area.
Palavras-Chave
Implantes Endósseos; Sutura Grega; Corticoterapia; Transplante Ósseo; Fixação
Rígida; Caso Clínico.
Key Words
Endosseous Implant; Grecian Suture; Autologous Grafting; Rigid Fixation; Clinics
Case.
Relato do caso
Paciente, sexo feminino, 52 anos procurou o Instituto
para uma avaliação clínica quanto a possibilidade de realização de uma cirurgia
implantodôntica no quadrante inferior esquerdo, substituindo os elementos
dentários ausentes por implantes endósseos uma vez que a mesma ansiava pela
substituição de sua prótese removível retida à grampo, o qual não se adaptara,
por uma prótese fixa.
Após o exame clínico inicial, verificou-se que a paciente
apresentava uma ausência dentária unilateral posterior, sendo portanto classificada
segundo a classificação de Bennett para edentulismo parcial em classe II.
Realizados os exames bioquímicos pré-operatórios,
confirmamos tratar-se de uma paciente em excelentes condições físicas; os
exames radiàgráficos, periapical completo e radiografia panorâmica, foram
em seguida solicitados e avaliados; de posse destes exames mais a realização
de uma espessiometria óssea classificamos, segundo Misch, em osso divisão
A, isto é espessura +/- 5mm e altura +/- 10mm, o que nos permitiu em nosso
planejamento considerar a colocação de implantes de 3,75 mm de diâmetro com
um mínimo de 10mm de altura, assim como a substituição de cada elemento dentário
ausente por um implante.
O fato destes três fatores acima citados serem extremamente
favoráveis, o que neste caso nos possibilitou inserir implantes de diâmetro
favorável, comprimento longo e um implante por ausência dentária, foi fundamental
para garantir o sucesso de nossa cirurgia assim como a longevidade de nossa
prótese, pois talvez seja a região posterior da mandíbula, entre todos os
quadrantes, a área que receba a maior carga oclusal durante o ato mastigatório,
e em contrapartida, a região que nos oferece menos recursos cirúrgicos para
contornar suas limitações.
Todos nós sabemos que a presença do nervo alveolar nesta
região é um fator limitante, reduzindo consideravelmente a altura óssea disponível
para a inserção dos implantes em forma de raiz.
Técnicas cirúrgicas como transposição do nervo alveolar
inferior, técnicas de enxertia óssea com fixação rígida, distracção óssea
entre outras, tem sido propostas com o objetivo de melhorar ou até mesmo criar
condições locais mais favoráveis, viabilizando desta forma a inserção de implantes
em áreas atróficas.
Infelizmente, eu poderia afirmar com toda certeza
que em nossa clínica diária a presença de uma mandíbula com um quadro tão
favorável seja quase uma exceção visto que em sua maioria nos deparamos com
mandíbulas atróficas com espessura e altura óssea mínima, fatores estes que
comprometem muito o prognóstico cirúrgico e protético quando realizado implantações
nestas regiões.
Realizado o enceramento diagnóstico, planejamos a
inserção de 04 (quatro) implantes na região de 34, 35, 36 e 37 (fig. 01).
No dia da cirurgia a paciente foi previamente medicada
com 05mg de Diazepan 30 minutos antes da cirurgia e 01g de Amoxicilina 1 hora
antes, estendendo o uso deste último por mais 07 dias com uma dosagem de 500mg
em intervalos de 08 horas; hoje adoto como protocolo terapêutico, além dos
dois medicamentos acima citados, a infiltração de 8 à 10mg de uma solução
injetável de Dexametasona perifericamente à área cirúrgica, seguido da administração
pelos dois dias subseqtientes de 08 a 04mg de Dexametasona comprimido, respectivamente
24 e 48 horas após a cirurgia. Um detalhe importante a ser observado na administração
de corticosteróides, é que tanto a cirurgia quanto o uso dos comprimidos devem
ser pelo turno da manhã, horário em que o organismo apresenta o maior nível
de produção diária de cortisol endógeno. Este simples detalhe possibilita
uma menor interferência da corticoterapia sobre a glândula adrenal evitando
com isso uma possível supressão da mesma.

Fig. 1
Fig. 2 Fig.
3

Fig. 4
Fig. 5
Fig. 6

Fig. 7 Fig.
8
Este
tipo de manobra tem se mostrado muito eficiente no controle do edema pós-operatório,
pois tais substâncias agem inibindo a enzima fosfolipase A1, enzima esta responsável
pela liberação do ácido aracdônico presente na camada de fosfolipídeos da
membrana celular, bloqueando com isto tanto a via cicloxigenase como também
a via lipoxigenase de metabolismo do ácido aracdônico; fato que reduz substancialmente
a concentração de substâncias como as prostaglandinas e os leucotrienos na
região operada, importantes mediadores químicos da inflamação.
Uma vez sedada e medicada, a paciente
foi anestesiada com uma solução anestésica do tipo Lidocaína 2% com adrenalina
1:100.000 com a técnica de bloqueio regional (alveolar inferior) complementada
com infiltração local (nervo bucal, e lingual).
Foi realizado a incisão principal ao nível
da crista óssea remanescente e uma incisão de relaxamento vertical anterior;
em seguida o tecido foi rebatido possibilitando assim a realização das marcações
iniciais.
A osseometria da região foi realizada
inserindo agulhas de Sialon nas marcações iniciais (fig. 02) o que serviu
para confirmar o nosso planejamento com relação ao comprimento dos implantes.
Após a confecção dos leitos, seguindo a sequência de brocas predeterminado
pelo fabricante (fig. 03), inserimos o implante rosqueado de titânio puro
com 3,75mm de diâmetro e 15mm de comprimento na região de 34 mais 03 implantes
rosqueados de titânio puro com 3,75mm de diâmetro e 13mm de comprimento nas
regiões de 35, 36 e 37 respectivamente (fig. 04).
O retalho foi suturado com uma sutura
do tipo Grega (U contínua) complementada com suturas simples como reforço
(fig. 05), o que possibilita uma maior segurança e um menor risco de ruptura
dos pontos.
Passado o período de osseointegração,
constatamos um sucesso clínico de nossa cirurgia não sendo diagnosticado nenhum
tipo de mobilidade, dor ou quadro infeccioso em torno dos implantes assim
como radiograficamente não foi observado nenhum grau de perda óssea. O aspecto
clínico da cicatrização gengival obtido em torno dos cicatrizadores, após
trinta dias da data de exposição dos implantes, pode ser observado na fig.
06 que neste caso específico apresentava um perfil de emergência de 05mm e
uma altura de cinta de 03mm.
A prótese planejada para este caso foi uma prótese
fixa do tipo hídriba, que une os princípios básicos de confecção da prótese
cimentada com recursos da prótese aparafusada, nos permitindo através de um
acesso coronário (fig. 07), a remoção de toda a estrutura após a remoção dos
parafusos de fixação dos abutments.
O acesso oclusal da prótese definitiva foi inicialmente
recoberto com um material provisório como pode ser observado na fig. 08, sendo
posteriorlnente substituído por uma resina composta fotopolimerizável.
Conclusão
Com toda certeza, a região posterior de mandíbula
é entre todas a que oferece maiores desafios para os cirurgiões que se lançam
no universo implantodôntico, entretanto com a evolução das técnicas de transplantes
ósseos autógenos, que são segundo palavras do Dr. Marcelo C. Manso, por unanimidade
os enxertos mais previsíveis na reconstrução estética de grandes atresias,
hoje nós já conseguimos prognósticos bem mais previsíveis quando da realização
de cirurgias implantodônticas nestas áreas de grande limitação anatômica.
Agradecimentos
Ao grande amigo e mestre Dr. Marcelo C. Manso, diretor
clínico do Instituto Brasileiro de Implantodontia, o qual devo eterna gratidão
por todo o seu incentivo com a minha pessoa.
Um grande mestre não é simplesmente aquele que ministra
boas aulas mas sim aquele que com poucas palavras desperta o desejo incansável
de conhecimento dentro de seus alunos.
Referências Bibliográficas
Prof. Assistente do Instituto Brasileiro de Implantodontia