Avaliacão da eficácia de enxertos de sínfise
    
mandibular na reconstrucão de defeitos ósseos em região anterior de maxila
Estudo por meio de Tomografia Convencional Linear

Renato MAZZONETTO*
Luis Augusto PASSERI*
Roger WiIIiam Femandes MOREIRA *
Liliane SCHEIDEGGER-SIL V A**


 Resumo
     O presente estudo avaliou o aumento em espessura óssea após a realização de enxerto autógeno obtido da região de sínfise mandibular, em região anterior de maxilas com grandes reabsorções ósseas, de pacientes que necessitavam de reabilitação por meio de implantes osseointegrados. O aumento da espessura óssea foi mensurado por meio de tomografias convencionais lineares realizadas no período pré-operatório e no pós-operatório de 6 meses da realização do enxerto. Houve aumento em largura das áreas enxertadas na maior parte dos pacientes possibilitando a futura colocação de implantes. Foi observado que o enxerto retirado da sínfise mandibular oferece adequada reconstrução de defeitos alveolares para a região anterior de maxilas reabsorvidas. Além disto, é de fácil remoção podendo ser realizado sob anestesia local possibilitando adequada arquitetura óssea para colocação de implantes.

Abstract
    The aim of this study was to evaluate the increase of bone thickness after bone graft from mandibular symphysis placed on anterior maxillary area, which was severe resorbed. Patients who needed dental implants were included in this study. The bone increase was evaluated by means of linear tomographis obtained from pre and postoperative period of six months. A increase in the graft are as was observed in alI patients allowding further reconstruction with dental implants. Use of graft removed from mandibular symphysis offers a good reconstruction of alveolar defects in resorbed areas from anterior maxilla. Besides, the removal of the graft it is simple procedure that can be done even with local anesthesia, making possible further reconstruction with dental implants.

Key Words:
Autogenous graft; osseointegrated implants; conventiona] linear tomography.

Palavras-Chave:
Enxerto autógeno; implantes osseointegrados; tomografia convencional linear.

Introdução
   A reabsorção do processo alveolar após exodontias, traumas ou patologias resultam em formas inadequadas de altura  e largura ósseas para a colocação de implantes. Boa estabilidade inicial, volume ósseo suficiente e qualidade óssea adequada são importantes fatores que influenciam no resultado final da cirurgia de implante 19.

     Os implantes possuem menores índices de sucesso na maxila quando comparada à mandíbula, e isto se deve principalmente à menor qualidade óssea que ela apresenta 2. As limitações anatômicas que a maxila possui como a cavidade nasal, o seio maxilar e o canal incisivo são fatores que contribuem para esses índices.

    Grandes defeitos ósseos na região anterior de maxilas parcialmente desdentadas comprometem o resultado final da estética, principalmente se o paciente possuir uma Iinha de sorriso alta (mais de 12mm) 7. Muitas técnicas cirúrgicas tem sido descritas para reconstrução óssea destes defeitos, dentre elas, a utilização de enxertos ósseos autógenos 1, 8, 9, 18, enxertos alógenos 3,11, heteroenxertos 4, substitutos ósseos aloplásticos 4,15, ou técnicas de regeneração tecidual guiada 9.12.

    Relatos da literatura afirmam que os enxertos autógenos, fornecem as condições mais favoráveis ao estabelecimento da osteogênese durante o reparo pós terapia cirúrgica 1,8.9,10.12,14,18. Apesar de requerer um segundo procedimento cirúrgico este é o único tipo de enxerto capaz de fornecer células ósseas vivas e totalmente imunocompatíveis 5.11, oferecendo melhores resultados que os outros tipos de enxertos.

    As principais áreas doadoras intrabucais, quando não se requer grandes quantidades ósseas, são a sínfise mandibular 8, 9, tuberosidade maxilar 12, região retromolar ou locais pós extração dentária 12. Quando há necessidade de maiores quantidades, osso extra-bucal pode ser obtido da tíbia 17, osso ilíaco 1, 10.13, costela ou calota craniana 17, entretanto, a complexidade do processo de obtenção destes enxertos pode ser um fator restritivo à sua utilização. SINDET -PEDERSEN e ENEMARK (1988) comparam enxertos de sínfise mandibular e enxertos de crista ilíaca ou costela na reconstrução de reabsorções severas alveolares, o estudo revelou mínima complicação da área doadora mandibular e pouca reabsorção quando os enxertos de sínfise foram utilizados.

     A arquitetura do osso residual para colocação de implantes deve ser avaliada no plano de tratamento através de minucioso exame físico intrabucal e radiografias da região. O exame radiográfico é indispensável no planejamento ,e na avaliação do sucesso do tratamento. As radiografias disponíveis para este fim são as intrabucais, panorâmicas, telerradiografias, tomografias convencionais e computadorizadas 6.

       A tomografia computadorizada tem sido proposta para este fim, mas pelo fator econômico não está ao alcance de todos os profissionais. Muitas técnicas que utilizam as tomografias convencionais para avaliação óssea na colocação de implantes têm sido descritas na literatura. Essas tomografias são confiáveis e úteis para determinar a qualidade e quantidade óssea, tanto no período pré quanto pós-operatório dos enxertos 10.

   Tomografia é uma técnica radiográfica na qual imagens são geradas pelo movimento simultâneo do tubo de raio-x e do filme através de um fulcro imaginário posicionado no centro do objeto mirado 6. A tomografia convencional linear envolve uma trajetória simples de movimento do tubo e filme, e produz cortes espessos, em torno de 5 mm aproximadamente, sendo de grande utilidade na avaliação óssea para a colocação de implantes.

Material e Métodos
    Seis pacientes apresentando perdas dentárias e defeitos ósseos na região anterior de maxila, foram submetidos à reconstrução alveolar utilizando enxerto autógeno da região da sínfise mandibular com o objetivo de restabelecer a espessura óssea, para posteriormente serem reabilitados com implantes 16.

    Todos os pacientes apresentaram bom estado de saúde geral. Foram realizadas radiografias intrabucais, panorâmica e tomografia convencional linear no exame inicial para avaliar a área maxilar e determinar se a área doadora, ou seja, a sínfise mandibular, apresentava osso suficiente para reconstruir o defeito.

    No período pré-operatório, todos os pacientes foram submetidos à antibioticoterapia com amoxicilina, por via oral, iniciada 1 hora antes do procedimento cirúrgico e sendo mantida por uma semana. Como medicação sedativa utilizamos Diazepam 5mg administrado por via oral 1 hora antes da cirurgia.

    Após anestesia local da região maxilar anterior, foi feito uma incisão horizontal no rebordo alveolar e, partindo de suas extremidades, duas incisões oblíquas até o fundo do vestíbulo. Um retalho total vestibular e parte da mucosa palatina que recobre o rebordo alveolar foram então rebatidos deixando o defeito ósseo totalmente exposto.

    O procedimento cirúrgico para retirada do enxerto consistiu em: após anestesia local por bloqueio mandibular bilateral, foi realizada uma incisão horizontal na mucosa alveolar vestibular, além da junção muco-gengival, entre a região de prémolares de um lado a outro 9. Após descolamento e afastamento dos tecidos, a região do mento foi exposta e os forames mentonianos localizados. Um retângulo foi esboçado com broca de fissura em baixa rotação e irrigação constante (Figura 1). Foram utilizados osteótomos para livrar o bloco de enxerto da região da sínfise sem invadir a cortical lingual. O enxerto foi retirado respeitando a distância óssea de 5mm abaixo dos ápices dos dentes e mantendo a integridade da borda inferior da mandíbula. A profundidade e extensão do enxerto foi de acordo com o defeito ósseo encontrado na maxila. A região foi suturada com fio 4.0 Catigut. Em seguida, o enxerto foi posicionado no defeito ósseo maxilar e fixado com parafusos de titânio de 1,5 mm de diâmetro e 9.mm de comprimento (W. Lorensà) (Figura 2). O periósteo do retalho foi incisado em sua base para obter elasticidade e proporcionar fechamento da ferida livre de tensões. As incisões foram suturadas com fio 3.0 Seda.

    Os pacientes não fizeram uso de suas próteses pelo período de uma semana, e logo após as mesmas foram aliviadas e ajustadas para evitar contato com a área enxertada. O reembasamento das próteses foi realizado utilizando uma resina resiliente (Eversoftà).

    Além das orientações pós-operatórias rotineiras para as cirurgias bucais o paciente foi instruído a fazer bochechos com Gluconato de Clorexidina a 0,12% duas vezes ao dia por duas semanas.

    Após 4 meses foi realizado outro procedimento cirúrgico reabrindo a área para remoção dos parafusos.

    Passado um período de 6 meses da realização do enxerto, cada paciente foi submetido a novo exame tomográfico convencional linear, tomada esta que foi realizada de maneira padronizada com a primeira.

    Foram realizadas medidas do ganho ósseo pela análise das tomografias pré e pós-operatórias dos pacientes. Foi traçada uma linha no longo eixo do rebordo à partir do ponto mais alto da crista. À partir desta projetou-se uma linha perpendicular a 5 mm de distância da porção mais oclusal, sobre a qual foi medida a distância entre as duas corticais, vestibular e lingual (Figura 3). Também foram considerados clínica e radiograficamente a área doadora quanto à vitalidade dos dentes, cicatrização dos tecidos moles, dano ao nervo mentoniano, perfil dos tecidos moles e função do lábio inferior.

Resultados
    Dos 6 pacientes analisados, foram obtidas 12 medidas comparativas, sendo os resultados de cada região correspondendo à cada dente, relacionadas no Quadro 1. Nas áreas 6,7 e 8 não foram obtidos os resultados desejados devido à reabsorção do enxerto. Portanto, 75% das áreas avaliadas obtiveram aumento em espessura suficientes para a colocação de implantes. Não foram observados comprometimento da vitalidade dos dentes, dano ao nervo mentoniano ou inadequada cicatrização dos tecidos moles em nenhuma área doadora avaliada. Assim como não houve alteração de perfil dos tecidos moles ou alteração da função do lábio inferior.

Discussão
    Os resultados da análise clínica e radiográfica dos pacientes revelaram ganho em espessura óssea na maioria dos pacientes. A qualidade de osso encontrada possibilitou a colocação de implantes mais longos e de maiores diâmetros melhorando o prognóstico do tratamento protético.

   
Fig. 1: Região da sínfise mandibular após osteotomia para remoção do enxerto
Fig. 2: Enxerto Posicionado no parafuso para ser fixado.

 


Fig. 3: Mensuração da espessura do rebordo: Pré-operatório = X: Pós-operatório = Y

PACIENTE
Região
Pré
Pós
Ganho
A
12
2,9
6,1
3,2
A
22
3
7,1
4,1
B
11
2,3
4,5
2,2
B
21
2,8
6
3,2
C
11
3,1
5,1
2
C
12
2
3,1
1,1
C
21
1,5
3
1,5
C
22
1,5
3,5
2
D
12
3,5
4,1
0,6
D
22
2,1
5
2,9
E
11
3,7
6,3
2,6
F
11
3,5
5,1
1,6

Quadro I: Medidas pré e pós-operatórias e do ganho em espessura (em mm).

    As próteses provisórias foram ajustadas para evitar excesso de carga sobre os enxertos evitando a reabsorção dos  mesmos. A colocação dos implantes foi feita após um período de 6 meses para evitar reabsorção gradual do enxerto, já que a literatura sugere que com a colocação dos implantes a arquitetura óssea tende a se manter estável.

    MISCH et al. (1992) relatam que o uso de parafusos de fixação em enxertos contribuem para aumentar a sua estabilidade primária promovendo melhor irrigação sanguínea. Adicionalmente os parafusos atuam impedindo a movimentação do enxerto, contribuindo para um melhor prognóstico.

    As vantagens da utilização do enxerto de sínfise mandibular comparada com outras áreas doadoras como a crista ilíaca, costela ou calota craniana, está na diminuição da morbidade, ausência de hospitalização, ausência de cicatrizes visíveis e complicações na área doadora. Quando comparada com áreas doadoras intrabucais como a tuberosidade, zigoma, palato e processo coronóide, a região fornece maiores quantidades ósseas. Comparada com enxertos homógenos e técnica de regeneração tecidual guiada, o enxerto de sínfise requer um menor período de reparação 9.

    Como desvantagens desta técnica podemos incluir a quantidade óssea limitada quando há necessidade de reconstruções extensas, risco de comprometimento das raízes dos dentes adjacentes à área doadora e lesão do nervo mentoniano, que podem ser minimizados se a técnica for empregada corretamente.

    Defeitos extensos de maxila envolvendo perdas de mais de quatro dentes anteriores podem requerer outras áreas doadoras que forneçam maiores quantidades ósseas.

C
onclusão
  As observações clínicas e radiográficas das áreas enxertadas demonstraram ganho ósseo em altura e em largura indicando que o enxerto retirado da sínfise mandibular é uma aIternativa viável para a reconstrução de defeitos alveolares a maxila anterior onde serão colocados implantes. A área da sínfise mandibular tem muitas vantagens em relação a outros locais doadores.

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