A Fonoaudiologia como
Terapia de Suporte ao Planejamento
da Prótese Sobre Implante
Maria
Theresa A. de C. Kalil (I)
Marcos da Veiga Kalil (2)
Paulo Fernando Aragon de Macedo(3)
Resumo
O
objetivo dos autores foi realizar uma revisão de literatura visando estudar
os aspectos multiprofissionais da relação entre a disfunção miofuncional e
a prótese, seus fatores intrínsecos e correlações com implantes osteointegrados.
Palavras-Chave
Deglutição
atípica; implantes osteointegrados; fonoaudiologia; terapia de suporte.
KeyWords
Deviate
Swallow; osteointegrat implants ; fonology; suport therapy
Abstract
The
purpose of the authors was to realize a literature revision intending to know
the multiprofessionals aspects associated with miofunctional disturbs and
the protesis, their inherent agents and correlations with osseointegrated
implants.
Introdução
A Deglutição Atípica como causa de interferência e alteração na posição dentárià
é um fato que a Ortodontia desde cedo aprendeu a lidar. Podendo ser considerado,
como uma determinante variável da oclusão em desequilíbrio. Sendo assim, com
relação a reabilitações, bucais extensas, onde encontramos perdas dentárias
em grande número, a deglutição atípica ou adaptada pode estar presente ou
estar instalada. Fato este que poderia exigir um planejamento diferenciado
para cada paciente no que concerne a terapias de suporte, com a preventiva
avaliação fonoaudiológica evitando um possível estresse destas estruturas
protéticamente reabilitadas.
Revisão de Literatura
Diferentes
especialidades na prática odontológica se voltaram para a necessidade de um
correto equilíbrio da musculatura oro-facial (KALIL, 1993) (MAZZETTO, 1997)
-(MONTENEGRO, 1996)
(OKESON,J.P.1998)( SERSON, 1989 );
Em 1952, POSSELT verificou
que somente pouco mais de 10% da população apresenta uma completa harmonia
entre os dentes e a articulação temporomandibular significando que os restantes
90% se
encontram em uma posição diferente da desejada.
Sendo que o conhecimento anatômico
e do crescimento facial fatores importante no tratamento para toda e qualquer
terapêutica odontológica. (CÀPELLI Jr, 2000) ( McMINN, 1983 ).
SHILLIMBURG, 1983 por este
motivo considera que na oclusão normal exista uma função reflexa do sistema
neuromuscular que fará com que a mandíbula se movimente, evitando os contatos
prematuros. E que alguma hipertonicidade muscular será produzida, mas geralmente
limitada pela capacidade adaptativa pessoal. A capacidade adaptativa de frequentemente
pode estar influenciada pelos efeitos de uma tensão emocional acarretando
uma passagem do estado adaptativo para um quadro patológico. Passando a um
quadro típico de dor de cabeça, dor muscular localizada e o aparecimento de
hábitos de estresse oclusal. Produzindo ainda maior destruição e disfunção
oclusal.
(SHILLIMBURG, 1987).
A realização de uma reabilitação oral
requer o estabelecimento de uma terapeutica em que os aspectos fisiológicos
devem ser observados e conhecidos (RUBÍN & RUBÍN, 1996 ). Por outro lado,
os aspectos anatômicos também devem ser avaliados para este fim já que novas
condições em pacientes edentados serão encontradas (McMinn,R.M.H.et al). Como
por exemplo, na perda em altura do osso alveolar após a exodontia,já que nestas
condições uma desproporção entre o tamanho normal da lingua e a altura dos
maxilares reabsorvidos, é verifcada. ( MISCH, 1995).
LINDQUIST, 1988 acompanharam por
seis meses portadores de prótese fixa inferior verificou que quanto maiores
as áreas em extremo livre maior a reabsorção óssea, quando comparadas com
a pequena perda óssea perimplantar esperada em média de 0,5 mm no primeiro
ano, chegando a 0,6 - 0,8 mm anualmente em condições normais.
Já a desordem muscular segundo
PUNLLINGER, 1981, seria responsável pelos sintomas em 30% a 33% dos casos
de Disfunção Temporo Maxilar, fazendo parte de seus fatores etiológicos. Neste
caso, a atuação multiprofissional se faz necessário para diminuição dos fatores
de risco, complicações e fracassos viabilizando a esquematização de um plano
de tratamento integrado (MONDELLI, 1984) ( PINTO, 2000).
Quanto aos fatores pelos quais
acontecem as fraturas dentárias eles vem sendo estudados de forma mais objetiva.
Por exemplo, BELL,J .G. et al. , 1982 evidenciaram de forma clara o mecanismo
pelo qual as fraturas dentárias acontecem, sendo a ação continuada das cargas
funcionais normais, flexionando os dentes enfraquecidos, um agente decisivo.
Entretanto, as alterações ocorridas nos dentes tratados endodônticamente pela
desvitalização dentária e a consequente eliminação dos mecanosreceptores pulpares
modificariam o limiar de excitabilidade do elemento dentário, ( RANDOW, 1986)
( SAUPE, 1996 ).
ROSEMBERG, 1992 cita
algumas complicações para o tratamento protético periodontal no planejamento
final como a ausência de uma oclusão estável, frequentemente com dificuldades
na mastigação e portanto, deglutição. Podendo ainda funcionar como um agente
traumático pertubador da cicatrização ( CESCHIN, 1984).
A cefaléia ou dor facial
pode ser associada a distúrbios de crânio, pescoço, olhos, ouvidos,
nariz, seios paranasais, dentes, boca ou outras estruturas da face ou crânio.
Notadamente as disfunções crânio faciais, precipitando diminuição da amplitude
dos movimentos, ruídos e dor. É outro fator que demonstra a estreita inter-relação
entre as diferentes áreas profissionais e a necessidade de um conhecimento
extenso a busca de uma terapêutica eficaz. Forçando a um equilíbrio precioso
e complexo entre cabeça e pescoço (RAFFAELLI Jr.,1997).
TAMAKI, 1982 considera
que os retentores ou pilares das próteses sofrem a carga protética de maneira
direta, servindo para fixação dos aparelhos fixos ou móveis. Citando que devemos
observar o equilíbrio biológico dos mesmos, viabilizando uma oclusão equilibrada,
restaurando em parte ou totalmente o aparelho mastigatório e também, dos tecidos
vizinhos.
Segundo MOLLO Jr.,
et al, 1996 avaliando as alterações da prótese total verificaram que no desenvolvimento
de uma reabilitação oral, o restabelecimento das relações inter-maxilares
constituem fatores importantes para que o sucesso ao final do trabalho seja
alcançado. Sendo que a perda dos dentes naturais podem levar a mandíbula
a adotar posições excêntrias, incompatíveis como ponto de referência para
estabelecer uma oclusão satlsfatória.
Em 1996, MONTENEGRO avaliando as
diversas técnicas utilizadas para determinação da reabsorção óssea causada
por próteses parciais removíveis classe 1 de Kennedy, verificou que todo o
sistema mastigatório está envolvido na trituração e ingestão dos alimentos.
A perda de qualquer estrutura dentária impõe modificações no funcionamento
de todo o sistema, necessitando de profissionais com conhecimentos abrangentes,
os quais possam criar condições que permitam o restabelecimento das estruturas
perdidas, para que o paciente retorne ao estado de normalidade.
POMILIO, 1996 estudando as alterações
dimensionais da prótese total durante o processo de inclusão. Verificou que
os objetivos principais para um restabelecimento da função e forma do aparelho
mastigatório / fonador, é o restabelecimento de suas funções básicas de mastigação,
deglutição, fonação e estética. Em consonância com MISCH, 1995 que considera
que os pacientes de idade avançada com perdas, dentárias extensas carecerão
de ajuda para adaptar a habilidade motora as novas condições.
O esquema do triângulo de força
muscular na deglutição normal atuando sobre a dentição utilizado por GERLINER,D
., 1974 demonstra que é preciso que haja um equilíbrio miofuncional. Os músculos
masseteres e bucinadores movem-se lateralmente em direção a dentição. A língua,
que é o músculo principal, é dirigida contra o palato duro ou o rebordo logo
abaixo aos incisivos inferiores, que são as partes do complexo orofacial designadas
para suportar o estresse ou uma grande quantidade de pressão anterior ( fig.1)
Simultaneamente os lábios (músculos orbiculares dos lábios) exercem força
posterior contra a arcada dentária superior. O músculo mentalis fica inativo
sendo assim a ação muscular padrão de deglutição normal ou maduro. Não há
nenhuma torça anterior contra a dentição.
Fig.1 -Mostra a posição correta da língua na
área própria para para suportar o estresse ou uma grande quantidade de pressão
anterior, no maxilar, superior.
O selamento dos lábios provoca
uma pressão intra oral negativa ou antagônica. O levantamento da língua e
sua angulação posterior permite que o bolo alimentar se "projete"
para dentro do trato digestivo com mínimo ou nenhuma pressão anterior contra
a arcada dentária.
Já no modelo de deglutição anormal
temos uma configuração de estresse completamente atípico. Pois a língua se
projeta em áreas não designadas para suportar o estresse ou uma grande quantidade
de pressão anterior (Fig.2)
Fig.2 -Mostra que a língua, se projeta
em áreas não designadas para suportar o estresse ou uma grande quantidade
de pressão anterior.
Segundo STRAUB,
1942 deglutimos cerca de 2000 vezes a cada 24 horas, Aproximadamente 2 vezes
por minuto quando acordado e 1 vez por minuto quando dormimos. E juntamente
com SWINEHART, 1942 concluíram que a pressão atípica da língua seria a causa
primária da má oclusão do tipo mordida aberta, e que o trabalho de readaptação
miofuncional corrigiria esta condição. As causas destas maloclusões por outro
lado, são considerados por SINCLAIR e LITTLE, 1985 originadas de fatores multifatoriais,
parte habitual e parte hereditária.
Em 1974, GARLINER
observou que as terapêuticas ortodônticas precedidas ou acompanhadas de terapêutica
fonoaudiológicas oferecem melhores resultados comparadas as anteriores, quando
não se executavam estas como rotina. Descreve a deglutição atípica como a
movimentação lateral e anterior da lingua em direção a dentição. A língua,
que é o músculo principal da deglutição, deve no entanto, ser dirigida contra
o palato duro que por sua vez é a parte do complexo orofacial designada para
suportar o stress ou uma grande quantidade de pressão anterior. Simultaneamente
os lábios (músculos orbiculares dos lábios) exercem força posterior
contra a arcada dentária superior. O músculo mentalis fica inativo. Ficando
portanto claro, que a pressão atípica da língua contra a arcada dentária ao
invés de ir contra o palato duro poderá causar sérios problemas de oclusão.
Se a arcada dentária está no caminho da língua em sua movimentação anterior
(Deglutição Atípica), esta língua poderá atuar diretamente sobre esta arcada
empurrando-a e causando problemas.
Com relação a reabilitações orais
extensas sobre dentes naturais ou ainda sobre a adaptação de próteses totais,
consideramos a terapia miofuncional como um grande aporte ao adequado planejamento
das mesmas. Pois o hábito incorreto da deglutição pela interferência da língua,
principalmente no primeiro caso aumentaria frequentemente em algumas vezes
a potência das forças no ato final da mastigação, o que por sua duração poderia
sobrecarregar este periodonto de sustentação além de seu limiar de resistência,
notadamente quando este periodonto está doente ( GARLINER, 1974) ( ROSEMBERG,
1992).
Discussão
É fato notório que forças horizontais
e de torque são significativamente maiores em dentes de suporte de retentores
de aparelhos protéticos parciais fixos ou removíveis do que para restaurações
individuais ( SHILLIMBURG, 1983).
Hoje já é bem conhecida a inter-relação
equilíbrio miofuncional e ATM, no que se refere aos fatores iniciadores, predisponentes
e perpetuadores das Disfunções Temporo-mandibulares como terapia de suporte.
No entanto, apesar de 90% da população não ter uma perfeita relação entre
os dentes e a articulação temporomandibular, não é observada a mesma casuística
no diagnóstico das síndromes de ATM. Isto porque, os fatores adaptativos e
individuais estariam agindo de forma a adaptar a função ( deglutição adaptada)
( McMINN, 1983 ). Por este motivo, CAPELLI Jr, 2000 considera que apesar
do conhecimento sobre o crescimento facial ser um fator importante no tratamento
ortodôntico estes estão sujeitos a resposta individual do paciente perfeitamente
tratados pela terapia fonoaudiológica de suporte.
As perdas dentárias com alteração
ou não da dimensão vertical proporcionam uma perda óssea progressiva que por
si só acarretaria uma desordem muscular, sem falar no desequilíbrio dentário
se não forem substituídas. Já nos casos em que a reabilitação oclusal prescinde
deste elemento dentário como no caso das reabilitações em dentição reduzidas
(OW ALL, 1997 ) ainda assim, se faria necessário uma avaliação fonoaudiológica
da posição da língua no momento da deglutição após a reabilitação bucal em
caráter adaptativo ( POMILIO, 1996 ).
A semelhança dos implantes
com os dentes tratados endodonticamente no que refere a ausência da função
dos mecanosreceptores pulpares para limitarem os esforços mastigatórios. Exigem
um cuidado a mais quando do plano de tratamento, visto que além disso não
possuem ligamento periodontal ou uma característica resiliente protetora.
Sendo assim, as forças mastigatórias além de poderem ser excessivas, não teriam
o agente limitante protetor, resultando na sobrecarga das articulações temporomandibulares.
Para tal, além de uma perfeita reabilitação oclusal, se faria necessário adequar
as funções correlatas de mastigação e deglutição em terapia de suporte fonoaudiológica.(GARLINER,
1974 ). Ou então sobrecarregar os pilares das próteses implanto-suportadas
acelerando os processos reabsorvíveis peri-implantares. (LINDQUIST, 1988)
(TAMAKI, 1982). O desequilíbrio da musculatura, oro-facial, (MAZZETTO, 1997)
( MONTENEGRO, 1996 ), (OKESON, J .P.1998) podendo levar ainda a mandíbula
a adotar posições excêntricas, incompatíveis como ponto de referência para
estabelecer uma oclusão satisfatória ( MOLLO Ir., 1996).
A realização de uma reabilitação
oral requer o estabelecimento de uma terapeutica em que os diferentes aspectos
fisiológicos devem ser observados (KAY ,H.B .et al 1992), (RUBÍN & RUBÍN,
1996 ). Como por exemplo a análise da capacidade mastigatória como princípio
de planejamento e estratégia na sequência de tratamento ( OWALL, 1997 ). Com
relação a reabilitações orais extensas sobre dentes naturais ou ainda sobre
a adaptação de próteses totais, consideramos a terapia miofuncional como um
grande aporte ao adequado planejamento das mesmas.
Esta indicação se justificaria,
pois o hábito incorreto da deglutição pela pressão sistemática e atípica da
língua pode aumentar em algumas vezes a potência das forças no ato final da
mastigação e deglutição. E por sua vez, por sua frequência e duração, poderia
sobrecarregar também as estruturas implanto-suportadas assim como o faz nos
dentes naturais além de seu limiar de resistência (STRAUB, 1942 ).
Conclusões
Podemos concluir através do anteriormente exposto
que:
Referências Bibliográficas
(1)
Especialista em Psicomotricidade e Docência Superior- Professora convidada
da Disciplina Optativa de Iniciação em Fonoaudiologia da UFF e Coordenadora
do Grupo de Estudos Fonoaudiológicos
(2) Especialista em Psicomotricidade e Docência Superior- Coordenador da Disciplina
Optativa de Iniciação em Fonoaudiologia da UFF,
(3) Especialista em Psicomotricidade e Docência Superior- Professor Coordenador
Técnico da Disciplina Optatlva de Fonoaudiologia da UFF.